Vivia com Cynthia em casa da avó Matilda e o avô Gorgie, os nossos avós maternos, desde de há pelo menos 4 anos, data esta que só ao lembrar, fazia chorar. Exactamente, o natal estava a chegar e consigo trazia na sua asa a trágica memória de um final triste, mas saudoso a nós.
Os nossos pais, Mary e Joseph, haviam morrido numa viagem de regresso a casa, cujo nunca ninguém conseguiu entender as razões do acidente, ate hoje inesplicado.
É claro que a avó Maltida, arranjava muitas maneiras simpáticas de tirar tais ideias da nossa cabeça, principalmente da minha por ser a mais velha, e em consequência disso, a que melhor entendia as razões da vida. Para Cynthia o papa e a mama apenas estavam numa viagem longa, e que tão cedo não chegariam, a tempo das festas natalícias.
"Oh inocência pura, quem me dera voltar nesse tempo, pensei comigo mesma.
Era triste olhar para trás e imaginar que tudo era desigual ao que é agora, como num simples passo a vida mudava sem que pudéssemos dar por isso. O destino era tão imprevisível.
Era domingo, um dia de descanso para muitas das famílias, e para nós dia de irmos na igreja acompanhar nossa avó, que dizia ser necessário realizar esse ritual, pois era o suficiente para manter os males longe de nós, "Será? Talvez, se ela o diz, eu cá, só posso acreditar".
É evidente que não fazia caso com isso, e que com todo o gosto a acompanhava em todos os eventos sociais, colocando o melhor vestido que tinha no meu roupeiro, aquele que era Verde celeste, com aquelas rendas prendadas, que apenas ilustravam uma menina recatada, com o cabelo de um apanhado impecável, soltando ondas nos termos finais.
A minha irmã era um problema, não aceitava nada do que a nossa avó pedia, no entanto por vezes ate era capaz de a defender com a desculpa que ainda era novinha e que ainda por ai tinha muito para aprender.
Como tal, ela ficava radiante e escapava a muitas das saídas para os encontros de chá que a meu ver, um pouco tão aborrecidos, só que eu não escapatória possível, e tinha mesmo de entrar nessa jogada.
Sorte era mesmo era do avô que não tinha dessas coisas para aborrecer, podendo muito bem ficar por casa de volta de suas velharias e de seus relógios antigos que não sabia qual a utilidade eles tinham uma vez que estavam estragados. Ok, os adultos tinham coisas muito estranhas, ao qual era muito bom ser criança para não entender.
- Mary Alice! - gritou avó da porta.
Comecei a correr com os meus sapatos novos e de sola resistente que fazia um toc toc agressivo na madeira de soalho envelhecida pela tempo das escadas da casa.
- Já avisei para não corres dentro de casa, pois podes cair e magoar-te! - reclamou ela, ao pegar nas maçãs do meu rosto para examina-lo. - Essa cara não ficou muito bem lavada... - disse, ao pegar agora na minha mão e levar ate a casa de banho, onde encheu a pia com água quente e pegou num pouco de sabão azul.
- Avó, não! - tentei fugir.
- Alice não tens desculpa! Não posso deixar-te sair com essa cara assim, já viste o que as senhoras vão pensar de ti? - cruzei os braços.
A mim pouco importava o que os outros pensavam ou não de mim, desde que não me chateassem com aquelas conversas de que casamentos era coisa mais importante, e coisas mais, estava tudo bem.
Acabei por deixar ela fazer o que queria da minha cara, o cheiro do sabão era tão impregnaste que tão cedo não ia ser fácil sair dele. Garr, gostava antes de outros produtos que não estes. "Oh saudades de casa, e dos banhos da Esmeralda, a nossa antiga criada" pensei comigo mesma.
Quando cheguei no carro, depois de passar por toda aquela vistoria, fiquei um tanto ou quanta espantada ao ver o avô no controle do veiculo, quando por vezes era o senhor Garden, o fiel motorista da família, que nos acompanhava em todas as saídas ate a cidade. Tive a ideia de perguntar a avó por ele, só que ai estaria a arranjar argumentos para ela não ficar muito feliz com as minhas perguntas.
Pois na sua cabeça um ideal de mulher, era silenciosa e sorridente. "Ai ate dói o maxilar de tanto sorrir" pensei.
Depois de bem acentuada no banco de couro, e de avó estar bem instalada dei uma olhada na casa, e lá encontrei Cynthia na janela, acenando um adeus. "Sorte, porque não sou a filha mais nova" pensei uma vez mais, logo a avó chamou a minha atenção.
- Mary Alice! - "porque que ela insistia em chamar os meus dois nomes sempre que dirigia a palavra a mim?" revirei os olhos quando tomei a atenção nela. - Depois do Chá vamos na loja de conveniência da cidade.. - abri mais os olhos, isso significava compras. - Vem ai o natal e como sabes, todos os anos gosto de ter a casa asseada, para as visitas.
Perdi o ânimo, quando descobri o real motivo da ida na loja, "Natal para mim já não é igual", pensei ao voltar a cabeça a paisagem que passavam por nós em câmara lenta. Desde a morte dos meus pais que o natal havia perdido o seu encanto, e que com isso, a minha alegria fosse em parte substituída pela tristeza.
Por mais que a intenção deles fosse alegrar a quadra, para mim nada fazia sentido, o brilho havia sido perdido, e a vontade de chorar era cada vez mais intensa, sempre que a época se estendia.
- Esta bem avó! - tentei sorrir para parecer simpática, mesmo que a minha vontade fosse de dizer o quanto essa data deixava-me aborrecida e desgostosa.
Chegamos na cidade, ao parar o carro, o avô cortes veio abrir a porta para as senhora, num ritual galã. Uma vez de pé firme no pavimento, tratei de ajeitar as brechas do vestido que havia de algum modo ficado amarrotadas.
Comecei a caminhar bem atrás da avó, sorrindo com encanto, mas não aquele que como na primeira vez vim conhecer este lugar. É certo que nessa época era bem mais novinha, e tudo parecia simpático. Cumprimentei algumas das senhoras que simbolicamente vieram ate nós para saudar.
A dona Adélia, a dona Cinita, a dona Cândida... enfim uma serie de mulheres, cujo o nome delas totalmente eu não lembrava, só algumas, pois era as que sempre sentava na nossa mesa de chá, começando conversas sem fim.
- Oh Matilda, a tua netinha esta cada vez mais linda! - teceram elogios a minha pessoa, que em tudo tentava mostrar distraída.
- A Mary Alice esta a crescer muito rápido! - falou ela. - Em breve terei de procurar um menino recatado para a noivar...
"Noivar?" questionei sob pensamento, "Eu não quero casar! Estou muito bem assim, longe de olhares assediados. Que nojo, aqueles homens" arrepiei-me. Era muito novinha para pensar em plano conjugais, ainda mal tinha recuperado altura e já estavam a planear um futuro para mim.
Ok, estava a viver numa época em que a opinião de uma mulher pouco valia, ainda mais quando criança, e como tal tinha de aceitar, segundo a regra. O problema estava mesmo ai, eu não ia aceitar de maneira nenhuma, nem que avó chegasse na minha casa com um príncipe de cavalo branco.. "Pensando bem ate aceito um príncipe", especulei.
- Que bom, seria óptimo iniciar um novo ano com um casamento, não acham maravilhoso? - era a senhora Cinita que falava alegre. - E talvez o pretendente ate possa ser o meu neto, Henrique.
Revirei os olhos, não querendo de modo algum continuar a ouvir esta conversa, que em tudo já estava a ser levada a rumos nada agradáveis. Então lembrei de escapar, pedindo licença para sair ate a um banheiro.
- Avó! - passei a mão no meu ombro, para tomar sua atenção. Ela olhou para mim com um sorriso. - Preciso de ir ao banheiro... - sussurrei. - Com licença... - levantei delicadamente da mesa, e sai como um boa menina ate onde queria.
Uma vez no banheiro sentei num dorso da janela, a minha vontade era de ver as folhas lá fora a cair da árvore, sendo enterradas pelos flocos de neve semi preenchida no chão. O facto de estar aqui distraída, ajudava em muito não estar presente a ouvir coisas obscenas como aquelas que eram tema. "Saudades da minha mama, ou menos ela não tinha destas conversas", pensei.
(...)
O chá havia terminado no exacto momento em que retomei a sala, deixando me ficar de pé quando vi todas essas mulheres recatadas, levantarem e despedirem-se de algum modo, umas das outras. Respirei fundo quando avó olhou para mim, e de certo pela cara que tinha ja devia estar com mil e uma questões a efectuar, que por minha sorte foram adiadas quando uma outra senhora abordou.
Já no carro do avó, ele piscou o olho para mim, percebendo bem o quanto estava aborrecida, "Só o avô me entende". Sentadinha no banco, de vestido ajeitadinho, o carro deu partida, indo em rumo a loja de conveniências da cidade de Bixoli.
- Mary Alice, vamos comprar algumas peças que vou deixar a teu critério as escolheres! - sorri, quase sem vontade, apesar de ter sempre aquele gosto requinte na escolha de tudo, ate na decoração do meu quarto com Cynthia.
Sim, o meu quarto era basicamente todo sob o meu gosto, sublime e pastel. As cores claras tornavam tudo muito celestial, digno de um paraíso, "Palavras da avó Matilda".
O veiculo do avô Gorgie parou mesmo na estância da loja. Como era evidente ele uma vez mais não entrou connosco, coisa de mulheres segundo ele falava. E não é era errado não, desde que sabia a mulher é que tinha o poder sob a casa, enquanto o homem sob o dinheiro, que enfim, achava que a mulher podia ter também esse controle.
Fomos recebidas pelo senhor Venâncio, muito simpático como sempre. Ajudou a dirigir-nos ate onde queríamos e é óbvio que fiquei deslumbrada com as cores maravilhosas que ilustravam a balustrada da loja. "Natal é sempre colorido", pensei. Peguei uma pequena cesta.
- Querida escolhe o que quiseres! Este ano vai ser a tua maneira! - deu todos os créditos.
Se fosse a minha maneira, então o natal não teria lugar naquela casa, contudo era uma quadra que por mais que o pesadelo fosse complexo, não ia deixar de existir. Peguei em vários objectos, antes de pousa-los dentro da cesta, haviam muitas cores, das quais por vezes era difícil decidir qual levar, no entanto fui excluindo por partes e formalidades. Então acabei escolhendo apenas o dourado, azul, vermelho e o verde. Entre muitos objectos que fui juntando encontrei umas pequenas peças que iriam formalizar a minha árvore, o presépio.
Segundo rezava a lenda da história da quadra, o presépio era parte da maior festividade por conta do nascimento de uma Deus menino e não existindo esse presente, não teria significado algum o Natal.
Finalmente tendo tudo o quanto era necessário aproximei da minha avó com um sorriso doce, levantando a cesta ate ao balcão do senhor Venâncio.
- É isto tudo? Que bela escolha meu amor! - falou ela com amabilidade, quanto a mim, apenas sorri em gesto de concordância.
Uma vez as compras feitas, fomos directamente para casa, onde a empolgada da Cynthia contava as horas para nós rever. Ao abrir a porta foi mais certo que a lotaria ela jogar numa corrida casa fora, para dar um abraço no avô.
- Cynthia o que disse, de quanto a não correr dentro de casa? - ups o bom humor da avó estava fugindo.
- Desculpa avó... - sussurrou ela do colo do vovó.
Peguei nos sacos, e pedi a Cynthia para me acompanhar ate a sala, onde já estava uma árvore pronta para receber todos os adereços que nós mesmas queríamos. Antes de iniciar essa actividade, deitei uma lágrima involuntária, por mais que esforça-se por não chorar, era cada vez mais difícil.
A minha irmã aproximou de mim e abraçou, com aquele abraço doce e menininha que precisa de mimo. Quando demos por nós, chorávamos como duas Marias madalenas, em plena sala, e em plena montagem. Por cada novo sino, ou laço, uma lágrima soltava-se, em que as palavras fossem meras palavras que a mãe e o pai queriam deixar sua mensagem.
A avó surgiu na sala, e silenciosamente, tirando o barulho do soalho rangendo, suportou-nos em seu colo, fazendo-nos parar para chorar em seu ombro.
Com seu carinho ela foi afagando nossos cabelos, a dor foi sendo cada vez mais pequena no meio da escuridão, que no fim de contas eram apenas recordações.
Quando esse momento nostálgico passou, senti-me forte e capaz de continuar a fazer a tarefa iniciada, lembrando sempre que a intenção era não deixar morrer a tradição.
- Tenho a certeza absoluta que tanto o teu papa, como a tua mama teriam muito orgulho em ti, meu amor! - falou avó ao entregar nas minhas mãos os últimos feixes de luzinhas coloridas.
Ponto final da preparação foi colocar a fixa na tomada e puf saiu a sensação de uma data inesquecível.
A meia noite chegou, e consigo trazia a dita tradição da história dos presentes rasgados, em meios sonhos. Sendo a minha vez de pegar o meu presente que estava embrulhado de um papel bem ilustre vermelho, o rasguei sem piedade, pois a vontade de ver o que lá dentro estava era muita.
Quando o papel já não passava de meros pequenos pedaços encontrei dentro do seu interior uma caixa, ao qual não sabia o que continha, mas que a vontade era de abanar.
- Abre Mary Alice! - "outra vez com esse habito avó", pensei.
Soltei a vontade e a curiosidade, quando ouvi um grito histérico da Cynthia ao meu lado.
- Ganhei uma boneca! - toquei com as mãos a caixa, esperando o momento certo e sem interrupções de abrir. - Obrigada avó é maravilhosa!
Olhei para todos a minha volta pedindo sob pensamento silêncio. E esse momento foi concebido, com maior agrado. Abri a tampa a tanto esperada, e de lá no meio de pedacinhos de papel, encontrei uma boneca de porcelana delicada. Levantei-a para ver melhor. Fiquei um tanto ou quanto encantada, ao ver o seu estilo tão aliciante.
A boneca estava vestida de um vestido pastel rosa, com umas lindas tranças douradas. Olhei para a minha avó, procurando a resposta que não conseguia encontrar, pois o meu presente nada tinha de igual ao de Cynthia, minha irmã.
- Essa boneca é muito especial, Mary Alice! - olhei para ela com uns olhos rasos de água. - É antiga, e pertenceu a tua mama... - uma lágrima escorreu no meu rosto, lembrando o quanto a minha mãe, talvez tivesse brincado com ela, o quanto cuida-se e ama-se.
- E..e..era... da ma...ma.. - gaguejei.
- Sim.. - respondeu avó.
Abracei muito forte este presente que em tudo estava a ser o melhor desde sempre, e que mostrava que o natal já estava a ter outro sentido. Mostrava por assim dizer que mesmo longe, estando eles, estão sempre perto de mim, de Cynthia, da avó, do avô...
- Este é melhor natal de sempre! - disse o avô a brincar connosco. - Vamos atacar os doces da avó?
Levantei do chão, pousando a minha nova amiga numa poltrona, e começando a correr, mas logo abrandar quando lembrei dos avisos da avó, que pelo menos hoje estava bem disposta.
- Mary Alice! - voltei a minha atenção para avó ela já esperando ouvir algum ralhete por conta do subido correr.
- Sim, avó! - soltei um sorriso de anjo.
- Já pensas-te num nome para a tua nova amiga? - feita a pergunta, fiquei pensativa, pois nada havia passado por minha cabeça em hora.
- Por acaso não! - olhei para o lado, procurando encontrar o nome que melhor identifica-se ela.
- Posso sugerir? - voltei meu olhar para ela, abrindo um sorriso.
- Sim... - saltitei um pouco, perdendo a postura, que logo a recompus quando um olhar ameaçador se soltou de sua parte.
- Então porque não lhe chamas de Mary, em homenagem a tua mama... - "Mary" pensei, o nome que me agradava muito.
- Olha eu gostei! - falei animada. - É isso vai ser a minha amiga Mary... - corri para pegar nela, fazendo gestos de apresentação. - Mary, esta a minha avó Matilda... - falei para a boneca. - Aquela menina que esta de volta dos doces, e que é muito gulosa...
- Eu ouvi isso Alice! - resmungou Cynthia entre dentes, não dei grande importância.
- é a minha irmã caçula, Cynthia... - continuei a falar para a boneca. - o senhor dos óculos que parecessem do século passado.. desculpa avô... - deitei uma olhada a ele, que estava a olhar para mim com cara de caso. - é o avô Gorgie.
- Olá MARY! - todos saudaram em coro.
- Sabem uma coisa? - falei para todos os presentes, mantendo a minha boneca no meu colo. - Este é o melhor de todos os natais, e agora se não se importam tenho uma amiga para deitar...
A sala explodiu em risos, que ate no andar do céu eram capazes de chegar. Subi as escadas muito delicada, em tratei de entrar no meu quarto, onde abri a cama e num canto coloquei Mary coberta de cobertores.
Cantei uma musica de embalar e acabei caindo no sono. Quando acordei já estava dentro da cama, e de certo, deduzi que tivesse sido avó a vir deitar-me de baixo dos cobertores. Tentei levantar um pouco, quase de soslaio, e peguei num pequeno diário, que coitado, ele já quase não recebia as minhas mensagens adultas.
Comecei a escrever a meia luz, as primeiras palavras seguidas de bocejos sonolentos que a qualquer momento denunciavam a chegado do fantasma do sono. Escrevi rapidamente aquilo que queria relatar, e arrumei sem barulho o meu caderninho, dentro da gaveta, e voltei a deitar-me.
- Boa noite! - sussurrei e fechei finalmente os olhos.

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