Vivia a muito tempo sozinha com os meus 5 irmãos, infelizmente nossos pais haviam falecido a pelo menos 2 anos, numa daquelas suas viagens ate à febre do ouro em São Francisco, que só de imaginar era terrível, pois havia sido numa madrugada fria que a noticia havia ecoado ate nossas vidas, e que a partir desse momento aprendia a ser adulta e tremendamente a cabeça da família, mesmo ainda não tendo completado os meus 17 anos.
Pra mim foi muito sofrimento, assim como para os meus irmãos que sentiam que o mundo acabava de os abandonar ao relento, quando no fim de contas ainda tinham a mim, embora eu não fosse em momento algum o pai ou a mãe, porque eles eram únicos e não havia ninguém capaz de os substituir, por mais dinheiro que tivesse ou por mais amor que sentisse. Por mais que gostasse deles, ou por mais que Monterrey fosse o nosso abrigo, desde a nossa infância, já não havia sentido manter aqui.
Então num determinado dia e sentados juntos da mesa redonda que num certo dia o tio Faustino havia construído quando a mama andava grávida de Celeste, eu pus em pratos limpos uma ideia, é claro que para uns era um absurdo ter de abandonar amigos, família mesmo ela sendo apenas de coração, quando na verdade sangue éramos só nos os 6.
Por outro lado, apenas estava a pensar no bem de todos, na segurança que não sentia a muito, e aquele medo de que uma noite fosse tudo menos tranquila, depois ainda haviam aqueles famosos boatos na aldeia de existirem animais comedores de pessoas, aqueles que deixavam corpos mutilados, ou simplesmente dissecados ao seu belo prazer.
Não que eu não acreditasse nessas coisas, porque existiam animais muito maus e perigosos, e por isso muitas pessoas e famílias haviam partido de suas casas para outras terras vizinhas, ou ate mesmo novos estados para manterem suas vidas sãs de perigos eminentes.
Eu por minha vez, faria qualquer coisa para proteger a minha família desses estranhos seres que faziam mal as pessoas, que deixavam suas almas pesadas a espera de seguirem caminhos ate ao inferno se fossem pecadoras, ou então ate ao céu se assim merecessem. Era terrível imaginar tudo isso.
Sendo assim a minha decisão estava tomada mesmo ela contra a vontade de Joseph que se achava valente para uma guerra, quando na verdade era uma criança pedindo colo e carinho. Todos os outros estavam arredados na borda da minha saia, porque tinham medo, e Celeste sendo a mais nova precisava de ser muito bem cuidada, que no entanto era quem mais sofria por não ter a mama para dar seu carinho que nos todos havíamos tido em sua tenra idade.
- Celeste eu não vou deixar nada de mal acontecer contigo, nem com os outros, eu prometo! - disse eu ao afagar os seus cabelinhos meios cacheados e loiros.
Ela olhou para mim com apego e medo descritos em seus olhinhos, mas no fundo sabia que confiava em minhas palavras. Então encostou sua cabecinha no meu peito e fechou os olhos adormecendo.
Quanto a Margaret andava sorridente com a ideia de construir uma vida nova em um sitio diferente, Margaux simplesmente ajudava na tarefa de preparar malas e mais malas para uma ida sem volta.
Joseph e Francisco não cediam, preferiam assim ficar a leste das decisões, pois não aceitavam o facto de abandonar a casa que em anos havia sido nosso lar feliz e aconchegado, onde havíamos nascido, crescido e iniciado nossas vidas.
Contudo o facto de pensar em encontrar um monstro, a entrar pela calada da noite e matar minha família, deixava-me muito assustada e então eu tinha mesmo de partir e levar a segurança ao máximo.
Quando a madrugada deu lugar a noite, acordei todos, menos Celeste que precisava de dormir descansada em meu colinho. Margaret pediu com gentileza para Joseph com sua força pudesse carregar a carroça velha que em tempos havia servido muito o avô Tamiro.
- Joseph preciso que carregues estas malas pesadas! - ele fez cara feia, mas cedeu, porque percebeu que uma donzela não tinha capacidade para fazer tal manobra, sendo que a carroça era alta e Margaret era muito baixinha, por isso iria sempre precisar de ajuda.
Depois de a bagagem estar toda ela instalada, foi hora de instalar as crianças em primeiro ponto, porque uma questão de protecção de irmã mais velha e ao mesmo tempo era algo que havia aprendido com a minha mãe nesse tempo feliz.
Quando já estavam todos dentro, voltei a casa, e ao atravessar a porta principal as minhas lágrimas escorreram face abaixo. Não conseguia explicar que sensação era essa que sentia no momento, talvez de abandono ao próprio lar.
Porem esta não havia sido uma decisão fácil, só que era hora de guardar segredos, sonhos que ficavam aqui presos.
Visto que já nada prendia, cobri cada peça com panos velhos e brancos que seriam o indicado para proteger do pó, e da degradação natural. Fechei a porta e acenei um adeus, talvez ate um dia, e simplesmente voltei as costas seguindo caminho ate onde os meus irmãos caçulas esperavam por mim com suas caras de sono e preocupadas.
Então instalei-me na parte da frente, pegando as rédeas dos velhos e cansados cavalos que em certo modo iam guiarmos ate ao novo lar, ao nosso novo futuro.
Depois de dias a fio de viagem com tremendas paragens para descanso, para comer e beber, chegamos em Guadalupe uma cidade nova num estado novo. Não sabia se era ou não um bom sitio, a verdade é que precisava de fazer uma pausa na sequência de viagem, porque os animais já ressentiam o cansaço e eu praticamente não dormia a dias, ate porque para as crianças o estado a que estavam sujeitas não era saudável e elas necessitavam do mínimo de condições.
Ao parar a carroça próxima de uma velha estação, eu pedi ajuda a um casal que pareceu bem simpático e que com sua bondade ofereceram alojamento para uma estadia curta. Para essa mesma família acabei por trabalhar, cuidado da lide da casa e das crianças que nela moravam.
Não era uma casa qualquer essa, era uma espécie de ponto de abrigo, onde crianças como os meus irmãos eram deixados quando pais faleciam, ou simplesmente os abandonavam por não terem as condições suficientes para os ter a seu encargo.
Era torturante imaginar suas vidas tão sofridas, talvez mais que a minha em tempos, contudo ia ajudar a fazer a diferença, a mudar seus dias e torna-los mais felizes.
- Bom menina Maria aqui será seu quarto não é muito grande, mas penso que será o suficiente para quem não tem nada, ne? - a senhora pegou num pedaço de pano dando para mim sorrindo amável.
- Obrigada senhora Robinson! - sorri do mesmo modo.
Os meus dias começaram assim felizes e inteiramente fascinantes, mas longe de imaginar o que o futuro reservava para mim.
Numa certa manha em que acabava de acordar para preparar o pequeno almoço da pequena, dei conta de algumas coisas estranhas na casa, entre elas, portas abertas, cortinas rasgadas e pior de tudo era ver manchas de sangue no chão.
O pânico tomou conta de mim, e só conseguia pressentir o pior cada vez mais próximo. Tomei coragem e com as minhas pernas caminhei ate esses corredores de acesso aos quartos. O sangue, esse continuava a uma réstia de caminho para quem estava perdido, e eu seguia essa sequência e ao abrir a porta eu vi a morte descria em meus irmãos.
Fiquei horrorizada, a minha família estava aqui na minha frente morta e sem uma única pinga de sangue.
Então corri ate eles, talvez com esperança de conseguir reanima-los de seus sonhos infinitos. Eu havia quebrado a maior promessa da minha vida que era protege-los, garantindo sempre que nada de mal acontecia, e ao pegar Celeste em meus braços e ver seu tom pálido foi tão horrível, sentir o seu corpo frio e sem réstia de batimento saudável e vida, foi como matar aos poucos.
E eu que pensava que estava segura nesse lugar, que essa vida estava reservada a nosso bem quando na verdade apenas devia ter dado mais ouvidos a Joseph, quando falava que Monterrey era nossa casa e o lugar mais seguro do mundo. Agora não havia nada a fazer, a vida de meus 5 irmãos havia sido levada para longe de mim, e eu estava sozinha nesse mundo novo, onde perigo estava apenas ao virar da esquina.
Tal como esperado mais vidas haviam sido tiradas, e todas as vezes os mesmos boatos continuavam a ser falados. Eram histórias de animais em forma de pessoas que se alimentavam de pequenas crianças ou simplesmente grandes adultos e que retiravam a vida.
Não se podia acreditar nessas histórias por mais que a verdade fosse mais ligada nesse ponto, gostava sim de acreditava que fosse alguém em seu fraco juízo a provocar todas essas mortes, mas a verdade é que não conformada com o facto de ter sido abandonada uma vez mais, e uma vez mais sem escolha.
Sozinha estava eu ao voltar de um cemitério da região quando ao caminhar por esse trilho de terra batida fui abordada por um jovem senhor que parou sua charrete bem ao meu lado. Como evidente não olhei para ele, continuei sempre a caminhar, fingido não estar ninguém em meu lado.
- Menina! Menina! - ele continuava insistente, então acabei mesmo por abrandar o passo, olhando para ele.
- Estava difícil! - disse por fim. - O que uma menina tão bonita faz sozinha nesse campo fora? - perguntou ele sorrindo.
- A passear! - respondi de imediato em curtas palavras.
- Não acha que é demasiado perigoso para uma donzela passear num sitio assim? - voltou a questionar, como se por uma ventura soubesse algo mais que eu desconhecesse.
- Eu não vejo perigo algum, apenas vejo nessa paisagem de árvores, caminho de terra. - cruzei os braços fazendo beicinho, e mesmo tempo escondendo o medo que sentia.
- Pois devia sentir medo, porque Guadalupe é a cidade escolhida para os vampiros atacarem! - falou em tom de mistério.
- Vampiros? - repeti meio desacreditada, ate porque esse tipo de seres estranhos e monstruosos não passavam das ditas lendas.
- Sim, vampiros. Nunca ouviu falar? - perguntou incerto. - Existem muitas histórias desses seres nessa cidade, incluindo que muitos deles agem como humanos e quando menos esperamos atacam à noite.
- O senhor esta a tentar assustar-me e não estou a gostar! - dei um passo a frente.
- Menina! - olhei para ele novamente. - Eu não quero assusta-la, apenas quero alerta-la para fugir enquanto é tempo. - o jovem senhor pegou nas rédeas dos cavalos e seguiu caminho a minha frente.
Podia ter respondido mas decidi ficar calada e pensar comigo mesma que talvez fosse hora de partir e voltar a casa, já que aqui não era seguro. Então foi isso que fiz, quando voltei ate onde a velha estação ficava e carreguei minhas malas partindo se acenar adeus a esta cidade que já havia deixado muita magoa.
Por esse caminho de volta fiquei a pensar nas palavras do jovem senhor que havia sido muito atencioso para quando na verdade eu não havia sido simpática, contudo teria oportunidade de seguir um conselho e desta vez não iria fazer nada errado.

Certera prosa, un placer leerte.
ResponderEliminarBesos.
Hola, me alegra que te haya gustado, soy totalmente feliz de saber.
EliminarBesos