- Eu também achei isso muito bom, contudo tem uma contradição. - disse ela ao qual cruzei os braços de imediato.
- E qual seria? - questionei em seguida.
- Eu nunca dei aulas, na verdade não sei como podem ser essas crianças dentro de uma sala de aula e como simplesmente podem reagir a dicas de um desconhecido. - atrapalhou-se todo. - E se elas começam atirar por coisas estranhas para a minha cabeça? - olhou para mim depois para James. - Oh eu vi essas coisas nos filmes, em que as crianças tomam posse da aula.
- Eleazar! - chamei. - Estamos a falar de um mundo real, não uma série ou um filme que tenhas visto, certo? - ele balançou a cabeça. - Eu compreendo que tenhas medo, mas se não sentias-te capaz porque simplesmente aceitas-te?
- Eu fiz isto por todos, afinal não posso deixar que sejas a única que carrega as desprezas da casa! - revirei os olhos. - É sério Carmen, não fica bem a um homem ser sustentado por uma mulher, e não preciso que digas que isso é coisa de machista, porque não sei se e se for que se lixe eu sou assim. - levantei as mãos sentando.
- Então não vejo outra alternativa que não aceitares esse novo passo! - afirmei.
James ao perceber que o tema estava em tempo de virar de rumo abandonou a sala, ficando apenas eu e Eleazar sozinhos a discutir medos e problemas de emprego.
Eu não era em todo a melhor pessoa para dar dicas de como ensinar alunos, sendo que essa nunca tinha sido uma vertente minha, pois teria seguido esse ramo, se assim fosse.
No entanto sempre havia sido boa a tratar de problemas mais concretos, ate porque bem antes de tudo ter levado o rumo que a minha vida levou, eu era feche de empresa, embora não sabia em que sequência, mas era chefe. Tinha responsabilidade, dava o tudo e o nada por tudo da minha vida.
- Seja lá como essa oportunidade vá correr, eu estou aqui e vou ajudar em tudo o que for preciso para que não sintas que estas sozinho nessa. - ele sentou ao meu lado, olhou bem fundo nos meus olhos, logo os obriguei a desviar.
- Carmen! - ele sussurrou o meu nome, como quem pede para que olhe em seus olhos.
- Já é tarde e eu preciso de ir descansar, quer parecer-me que amanha teremos um dia complicado!
Apressei-me ate as escadas, e num abrir e fechar de olhos entrava no meu quarto, encostando-me a porta e ter um surto de sentimentos momentâneos. Eu não queria sentir o que estava a sentir, queria lutar contra mesmo que isso fosse quase impossível.
As vezes era fácil, porque haviam razões para que nos pudéssemos acreditar e conseguir, porem haviam outros momentos em que isso não era do modo que nos queríamos e então a melhor forma de evitar erros era fugindo.
E aqui estava eu refugiada no quarto, sozinha e prestes a entregar-me as memórias. Escorreguei ate ao chão, ficando sentada, mas ao mesmo tempo encolhida não por sentir frio, mas por sentir remorsos do que sentia.
Estava nesta luta por Alice, e por Alice teria de manter o foco, foco esse que eu preferi não acreditar naquela noite, e que hoje me arrependia amargamente, por não ter dado ouvidos aos seus meros sonhos que no fim acabaram se realizando.
"Estava uma noite de Verão fria, talvez a chegar naquela altura do ano em que havia a chamada mudança de estação em que o Verão dava lugar ao Outono que era sinónimo de frio, vento e chuva.
Estava aconchegada na cama com o meu marido a terminar um relatório para entregar na empresa do dia seguinte.
- Oh meu amor, precisas de parar de trabalhar, já viste as horas? - tentou tirar das minhas mãos o bloco de notas.
- Não posso, preciso mesmo de terminar aqui uma coisa.
- Mas tu és a chefe e os chefes não trabalham horas extras, por isso, já chega! - e assim ele tirou o meu portátil do colo para o lado e começou com o jogo de sedução de marido presente ao qual eu não resistia.
E com beijo aqui, carinho ali, Alice apareceu na porta do quarto com os olhinhos marejados de lágrimas e ursinho na mão.
- Mama posso dormir com vocês? - perguntou ela enquanto aproximava da cama.
Levantei de onde estava, indo ate ela e pegar no colo, afagando seus cabelos, e limpando suas lágrimas.
- Alice meu amor, o que eu disse em relação a dormir na cama? - voltei a pousa-la no chão. - Tens uma cama e um quarto, por isso é lá que tens de estar, sim?
Acompanhei-a ate ao seu quarto, deitei-a e fiquei a observa-la enquanto ela começava com suas histórias.
- Mas mama, tu não acreditas em mim, mas eu vou contar-te uma coisa. - inclinei a cabeça, continuando a dar carinho. - Eu vi que quando estávamos todos a dormir e estando uma tempestade lá fora que os uns estranhos, entravam em nossa casa e vinham buscar-me e que quando eu gritava por ti, e tu vinhas a correr em meu auxilio tu magoavas-te e perdias-me de vistas quando um carro muito negro seguia estrada fora muito depressa. - puxava agora uma manta para a cobrir.
- Oh meu amor isso não vai acontecer, alem disso queres ver o meu pé? - mostrei o pé mexendo os dedos. - não estou magoada. - sorri. - Foi só um sonho, mas agora dorme, sim? - beijei o alto de sua testa, fechando a luz em seguida.
Pela madrugada aos sons dos trovões na rua ecoavam alto seguidos de gritos de Alice que fizeram saltar da cama correndo em seus auxilio.
- Alice, meu amor? - gritei indo ao quarto dela, vendo a cama desarmada. - Alice? - voltei a gritar por seu nome.
Continuei a procurar por outras divisões e não a encontrava.
- Mama! - gritava ela de parte incerta.
Comecei a correr pela casa desorientada e com medo, e como não olhava para o chão acabei mesmo por magoar no pé, pisando em um objecto cortante ao reparar na porta escancarada.
- Mama! - voltou a gritar.
Alcancei a porta e olhei para fora onde a chuva caia intensamente e um carro negro acabava de arrancar. Desesperada como estava comecei a correr atrás dele, mas não consegui de modo algum alcançar o veiculo. Foi então que comecei a pensar que a minha filha estava certa e que ela não estava a mentir quando dizia que essas coisas aconteciam, e eu simplesmente achava que eram delírios da sua cabeça."
Recordar essa noite fatídica fazia com que eu ganhasse novamente o foco, nunca perdendo a esperança do que na verdade trazia ate aqui.
- Carmen, não é hora de perder o foco! - disse para mim mesma ao deitar na cama e tapar minhas pernas com os cobertores. - Não a tempo para paixões porque elas nos cegam.
Caroline
Pela manha quando acordei e levantei da cama não pensei outra coisa se não procurar um ponto de fuga. É que essa intervista não podia ir para o ar, porque isso ia arruinar tudo o que ate ao momento estava a viver. E um ponto fundamental que queria continuar a manter era o facto de não magoar ninguém.
Sai do quarto de mochila as costas como se nada fosse, mas já alguém gostava de reter minhas atenções bem cedo.
- Estava a ver que nunca mais ias acordar! - fez ironia Jasper.
- Olha quem fala! - passei a sua frente. - Onde é que vamos mesmo? - perguntei pegando as chaves de casa.
- A central eléctrica da cidade. - respondeu ele. - Eu sei que não é propriamente um sitio mais romântico, mas dá para o gasto.
Dei de ombros não dando sequer resposta para essa insinuação barata.
Por esse caminho fora, estava ciente dos risco que eventualmente podia expor, contudo era algo que necessitava de arriscar.
- Pareces nervosa, faiscas! - suspirei ignorando sua presença.
Finalmente encontrei uma placa que dizia "Central de electricidade de Vale Perdido a 20 metros" e segui em frente.
- Andas muito apressada! - resmungou ele, ao qual parei para o encarar.
- Se era para vires reclamar o caminho inteiro, acredito que ficarias melhor em casa. - cruzei os braços bem tensa.
- E achas mesmo que eu ia deixar que viesses sozinha para este lugar. - olho sério para mim. - Caroline, não estas sozinhas nisto, e não é apenas a tua vida que fica em causa, certo? A minha e a dos outros. - virei a cara.
Discutir com Jasper não ia levar a lugar algum, porque éramos diferentes e estávamos sempre a travar a mesma guerra por mesmo motivos, por mesmas razões.
Rendi, voltei as costas e continuei a trilhar, já que se eu falasse ele acabaria argumentando contra e quando olhasse para trás estávamos novamente a discutir, talvez sem nexo.
Eleazar
Já estava acordado quando escutei os jovens a sair porta fora com suas brigas de adolescência. Contudo o problema que eles estavam prestes a resolver não era tão grande quanto o que eu estava prestes a enfrentar.
A verdade é que pensar em crianças dentro uma sala fechada comigo não era algo que eu disse bom, porem eu chamava-me Eleazar Misty e teria de dar o exemplo de bom pai, bom professor, certo? Então não podia ter medo de um bando de crianças, ate porque elas eram isso mesmo, C-R-I-A-N-Ç-A-S.
- Eleazar, bom dia! - deixei cair os livros que acabava de apanhar na estante no chão. - Oh meu Deus eu não fazia ideia de que a minha presença causa-se tanta desordem. - comentou Rennée.
- Oh não imaginas o quanto.
- Desculpa eu não percebi?
- Estava a dizer que os livros escorregaram das minhas mãos. - disfarcei de imediato. - Mas o que faz aqui tão cedo Renée? -perguntei pousando os livros na secretária, olhando ela.
- Vim ver como os meus vizinhos queridos estavam, e comentar uma noticia que vi no jornal.
- Claro, vem comigo então eu preparo um café enquanto trocamos impressões.
Digiro-me com ela ate a cozinha onde preparei de imediato duas xícaras de café bem forte assim como eu gostava e porque era uma forma de manter o sono longe de mim, ou então de manter a minha paciência em alta quando se tratava de aturar alguém chato feito a minha vizinha.
Sentei na mesa a sua frente e aguardei sinceramente que ela começasse a com sua conversinha barata já que era o que ela melhor sabia fazer, sendo de matéria de vizinhos e vidas alheias era o seu ponto afiado.
- Lês-te o jornal ontem? - perguntou ela ao pousar a xícara na mesa.
- Por acaso li sim! - respondi. - Mas porque?
Não lembrava qual podia ser o ponto importante para ser comentado a uma hora dessas, a menos que estivesse a referir-se a algo de outro calibre que eu sentia ate formigueiro só de pensar.
- Por acaso viste aquela noticia sobre uma mãe que anda desesperada a procura da filha? - cocei a nuca pensativo e já espera que o tema rodasse nesse sentido. - Ai se fosse a minha Jane eu ficaria desperada também, meu Deus nem é bom pensar.
- Claro eu também se fosse algum dos meus filhos ficaria assim. - comentei. - Ate porque olhos da minha alma, filhos são a nossa vida. - levei a mão ao peito.
Ela bebeu mais um gole do café, e olhou para mim com cara de comentário.
- Mas eu estou curiosa para assistir a intervista, acho que o pais vai parar todo para ver. - ajeitou-se toda.
- Não acho que seja motivo para tanto, é só mais caso de uma criança desaparecida. - ela olhou meio esquisita. - Oh, eu não desvalorizo nada disso, não é? Mas cada um tem o seu modo de pensar, certo?
- Claro! - suspirou. - Oxa lá essa mãe encontre a filha, porque eu não ia parar enquanto não percorresse o mundo inteiro.
- Imagino que sim!
Jasper
Caroline era mais teimosa que uma porta quando queria, e eu o burro tinha de ceder aos seus mandatos como fosse um simples capacho. Oh que influencia as mulheres tinham sobre nós, mas porque?
- Vais ficar ai a olhar, ou vais ajudar? - gritou ela, ao que comecei logo a correr.
- Já estou a ir, general!
Em meio tempo estava ao lado dela, de mãos na cintura a olhar para infra estrutura a nossa frente cheia ela de muitos cabos de alta tensão e outros afins.
Aparentemente parecia um cenário de guerra autentico, como aqueles dos filmes do "Hitler" que construía os famosos campos de concentração, onde recorria a morte de todos os judeus da época do "Nazismo" e a visão que tinha era de puro terror. Mas voltando a realidade, é óbvio que isso não ia acontecer aqui, nem havia sequer nenhum Hitler para ditar tais ordens, mas em seu lugar havia uma dada loira que era pior que ele a ditar regras, e de que maneira.
- Chegamos, essa é a porta principal para o fornecimento de energia da cidade! - comentou ela. - o problema é que eu não sei se vou conseguir... - desanimou.
- Ei, Caroline tu és forte. - incentivei. - Alem disso se isso te faz feliz pensa em mim e cria um alto curto circuito.
- Mas que espertinho, deves achar que o mundo gira tua volta. - e faiscas a sua volta começaram a expandir sem controle, porque se algum modo estava a irritar e isso provocou de imediato uma pequena expulsão exterior.
- Haaaa.... -cocei a nuca. - Care, acho que conseguimos.
Abri a porta da parte externa e só se via fumo por todo o lado, e uma onda de correntes eléctricas em expansão.
- Vamos sair daqui antes que isso expluda no dobro. - mas ela ficou quieta observando. - Caroline! - gritei tendo mesmo de a agarrar a força e com algum esforço arrastar, contudo uma outra expulsão fez-nos ir ao chão, e bater com a minha testa no chão e sentir o salgado do sangue em minha boca. - Estas bem? - perguntei a ela que não dizia uma palavra alguma. - Care? - abanei ela, contudo parecia apática, sem reacção. - Bolas, eu não podia esperar isto.
Então carreguei em meus braços a grande custo para fora deste espaço que estava altamente perigoso.
Ao chegar num sitio seguro e mais verde, deitei-a no chão, olhando sempre para ela com cuidado e analisando com olhos de ver se ela estava com alguma ferida. Aparentemente parecia estável tirando o facto de que não reagia a nada, e isso deixava-me em pânico, pois de volta e meia a culpa carregava a minha cabeça.
- Vá lá Caroline, não me deixes mal! - peguei a sua mochila e tirei de lá uma garrafa de agua e molhei seus lábios, foi então que ela começou a reagir.
- Jasper! - sussurrou ela tentando levantar. - Onde é que nos estamos.... - ela olhou para os lados meio confusa, porque seus olhos oscilavam muito.
- Estamos fora de perigo! - disse por fim.
- Eu provoquei aquilo tudo! - ela olhou para o sitio onde muitas e pequenas infra estruturas electrizavam entre si. - Eu sou um monstro! - abracei ela forte, afagando seus cabelos.
- Não és não!
Eleazar
Por mais um tempo de conversa ouvi os miúdos a irem para a sala a correr, e logo levantei de onde estava para os repreender sobre esse tipo de acção.
- Só um minuto Rennée! - fui ate a sala. - O que eu falei para vocês sobre correr dentro de casa, meninos? - cruzei os braços, mas Alec já estava com o comando na mão quando a tv ao ser ligada fez pum.
- Oh! - assustou-se Maggie. - A Care e o Jasper fizeram pum! - disse ela olhando para o Alec.
- Quem é que fez pum? - entrou Rennée curiosa na sala.
- A televisão! - falei de imediato evitando que as crianças falassem demais.
- Não há problema podem ir lá casa ver televisão, porque a minha é nova, mandei vir na semana passada, essa garanto que não faz pum. - riu-se toda, chamando a pequenada. - Vamos meninos, também tenho lá bolinhos para todos.
- Obrigada Rennée! - sorri acompanhando todos ate a porta.
Maggie ao ser arrastada fazia cara feia, e eu bem sabia a razão, ate porque não era difícil, certo? Mas pronto a minha caríssima senhoria iria ter a mesma surpresa desagradável. E conclusão das conclusões eles tinham conseguido, mas a noite ia ser de velas.

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