Alice estava de regresso a casa depois de uma temporada complicada de exames de final de semestre na faculdade. Ela era boa aluna, é certo, e por isso quase sempre deixava toda a gente em segundo plano na sua vida, apenas focando suas energias nos estudos.
É sabido, que até o namorado já reclamava da falta de atenção por parte da jovem, o que a cada dia destruía mais a relação que ambos tinham. E de um casal de namorados iam passando a meros amigos e conhecidos. Por outro lado, ele já sabia que tipo de moça Alice era, uma autentica rata de livros, então segundo os pensamentos dela, não tinha com que reclamar, certo?
Ao abrir a porta das traseiras da cozinha quem a encontrou ficou bem feliz por a ver.
- Alice, meu anjo! - saudou Petra abrindo bem os braços para abraçar a recém chegada com aquele sorriso de criança que tão bem lhe ficava e que nunca ia deixar de ser seu.
- Petra! - disse a jovem largando a sacola e correr para os braços da senhora idosa, a abraçando de forma carinhosa e desprovida de medos.
- Como está a minha menina? - perguntou esta enquanto afastava um pouco a jovem para fazer uma analise. - Ai, ai... estou a ver que tens te alimentado muito mal. - cruzou os braços a senhora.
Alice não conseguiu resistir aos cuidados incensáveis de Petra que durante toda a vida havia vivido a servir a família Brandon, mesmo depois da morte do pai da jovem, que enfim a guerra não o havia poupado.
- Eu tenho comido, mas sabes que toda a comida que como, nada é igual a que tão bem confeccionar. - confessou a morena com ar de rata roubando uma maça da fruteira.
- Ai, ai.. que terei de ir mais vezes a Boston ver essas cantinas da universidade que frequentas.
A jovem não conseguiu não rir, com o comentário da senhora que no fim de contas apenas se preocupava com ela. Mas enquanto Alice se distraia com Petra em plena cozinha, já havia alguém que acabava de entrar o carro na entrada e vinha o caminho a reclamar.
Mesmo pegada na conversa animada com a jovem, ela sabia bem quem por ai vinha e claro que não podia ser mais ninguém que não, Cynthia. Então falou alto e bom som:
- Parece que a minha menina reclamação acaba de chegar! - Alice mordeu a maça olhando para a porta.
Cynthia surgiu na porta com cara de poucos amigos, mas ao ver a irmã sentada a comer sua maçã, mudou completamente sua disposição para um belo sorriso, tirando para lá a má impressão que trazia consigo.
- Alicita! - gritou ela saltitando para cima da irmã que desajeitada tentava respirar afastando a peça de fruta para não ser esmagada pelo o abraço forte.
- Cynthia, assim vais sufocar a tua irmã! - alertou Petra rindo da cena de afecto de irmãs e muita saudade que o tempo se encarregava de alargar.
Mesmo não tendo qualquer problema, Alice manteve-se abraçada a caçula que ao afastar a olhava de alto a baixo em analise, mas embora bem diferente da senhora. É certo que o olho clínico que Cynthia era portadora, era bem mais direccionado a outro sentido.
- Puxinha, andas na moda! - falou a menina dando uma volta em torno da jovem que apenas a olhava sem saber o que falar, mas que apenas ria por não ter outra reacção. E até Petra que mesmo ocupada com suas panelas e tachos não resistia as brincadeiras da caçula.
(...)
Quando a noite caiu, a hora de comer chegou e estando todas juntas á mesa a senhora Brandon chegou. É claro que quando viu que sua filha mais velha havia chegado, ficou bem feliz pois era sempre bom ter as filhas por perto, ainda mais agora que tanta coisa nova estava acontecendo em sua vida.
- Mãe assim eu fico envergonhada! - confessou a jovem. - Mas senti muitas saudades ainda assim.
- Oh claro! - falou a senhora Mary sentando a mesa enquanto seu prato era servido cuidadosamente por Petra. - Mas me fala minha querida como está a correr os exames?
- Está tudo ótimo, já os terminei e provavelmente, apenas terei um para repetir, pois não sou muito boa nessa matéria. - falou ela.
- Dessa forma fico feliz por ver que andas empenhada nas aulas.
Todas sorriam a mesa e o ambiente estava completamente de uma família feliz até que a campainha começou a tocar.
- Estão a tocar a campainha! - disse Cynthia que levantava da mesa para atender a porta, ou esse alguém podia simplesmente ir embora.
- Deve ser o Gorgole! - falou a senhora Mary limpando delicadamente os cantos da boca com o guardanapo.
- Quem é Gorgole? - questionou Alice pousando o talher.
- Namorado da mãe, oras! - respondeu a irmã ao voltar para a mesa, pois a porta já estava aberta.
Porém quando Gorgole entrou dentro de casa, o coração de Alice ao olhar para ele congelou. Ela não queria acreditar que a pessoa que via era realmente a mesma pelo qual havia feito tão mal a 5 anos. No entanto, era ele, aquele maldito que um dia em que estava numa festa da escola, ele a havia puxado a um cantinho escuro e abusado dela sem piedade.
- Boa noite! - saudou ele entrando e sorrindo a todos.
- Alice querida, este é o Gorgole! - apresentou a mãe. - Gorgole, esta é a Alice!
Contudo, ela apenas saiu a correr da sala, como se a presença daquele homem a assombra-se continuamente apesar do tempo que havia passado para apagar essas memórias. Mesmo assim haviam memórias que nem a própria ciência do inconsciente sabia explicar, a verdade é que elas permaneciam para todo o sempre.
- Peço desculpa meu querido pela atitude da minha filha, mas ela não tem esse habito de ser assim indelicado com as visitas. - explicou ela. - Temo que possa estar com vergonha das tua presença, mas deixa.. eu mais tarde falarei com ela. - falou Mary.
- Tudo bem, é uma jovem adolescente! - desculpou ele.
(...)
Uma vez no quarto, Alice só queria que ele fosse embora, porém havia algo ali que impedia isso e de certo modo era a única razão de tudo, a sua mãe.
É certo e sabido por todos que estava na hora dela encontrar seu caminho para a felicidade, pelo simples facto de ainda ser bastante jovem e ter uma vida plena pela frente. E como tal necessitava de uma companhia para seus dias e noites, pois um dia suas filhas iriam sair da sua asa, ou na verdade uma delas já estava a sair, que contudo era segurada pela outra.
Mesmo assim era importante ver que uma mulher bonita encontrava seu cantinho com a pessoa certa, o que no caso não era isso. Gorgole era de longe a pessoa indicada para esse efeito, pois jamais faria da mãe uma pessoa feliz tendo um passado tão escuro.
Distraída com os seus pensamentos, ela nem deu conta do toc toc da irmã na porta e sua entrada improvisada. A verdade é que já era esperado tudo e o nada.
Por outro lado a cabeça de Cynthia entrava dentro de um turbilhão imenso. Os seus pensamentos em tudo caiam na irmã e na sua reacção que enfim até era aceitável uma explicação, mas atenção ela tinha de começar aceitar a vida da mãe pela felicidade e não pelo capricho.
Ainda assim, era normal o facto dela não aceitar homem algum para além do pai, pois como tal não tinha substituto, nem que o mundo acabasse, contudo, direito a felicidade não podia ser negada, então essa não era a melhor reacção.
- Alice! - a jovem caminhou até a cama sentando na frente da irmã. - Eu sei o quanto eras ligada ao nosso falecido pai, mas como tua irmã, tenho o dever de falar que não podes ser igoista com nossa mãe. - ela sorriu para não parecer totalmente má.
- Eu não me importo que a mãe seja feliz. - confessou a morena que cuidadosamente pousava o livro que um dia havia sido oferecido por seu pai em um aniversário seu.
- Então onde está o problema?
Não havia muito mais para fugir. Alice tinha mesmo de abrir a boca e falar o que tanto atormentava, ou mais 5 anos iam passar.
- O problema é que esse homem que a mãe chama de namorado, companheiro ou lá o que seja... - ela parou para respirar fundo e só então olhando para a barra da cama continuou. - Fui vitima de abuso sexual, Cynthia!
- Isso é uma acusação muito grave, Alice! - falou a outra levantando da cama para a porta a trancando muito aterrorizada.
- É claro que sei o quanto é grave o que falei. - suspirou. - Mas é verdade Cynthia! - ela falou desesperada enquanto levantava da cama, começando a escutar passos até a porta. - Acho que alguém vem ai!
Cynthia limpou a cara respirando fundo. Mesmo nunca saindo do lado da porta ela quase que prendia a respiração, por outro lado a pessoa forçava para entrar, até ser liberdade a sua entrada finalmente.
- Abre Alice! - gritava a mãe. - Precisamos conversar, é muito importante.
Alice olhou a irmã e acabou cedendo ao abrir a porta.
- Puxa, filha! - falou a mãe entrando e dar conta de que não estava sozinha. - Cynthia meu bem, vai fazer companhia a Gorgie, que eu quero ter uma conversa séria com tua irmã. - pediu com educação a senhora.
- Não! - bateu o pé a jovem, o que fez Alice arregalar os olhos.
- Estou achar vocês duas muito estranhas, o que se passa aqui? - a pergunta foi inevitável tanto quanto a verdade que por ai vinha.
- Eu vou falar! - respondeu a jovem entre um reluta da mentira e a verdade. - Não gosto do Gorgole pelo simples facto que foi ele o homem pelo qual fez aquela coisa horrível comigo a 5 anos. - a senhora a olhava inacreditável para ela. - Ele abusou de mim sexualmente.
A revelação deixou o clima em si completamente tenso, tanto para a jovem que confessava, tanto para a mãe que não queria acreditar.
- Isso não pode ser verdade! - disse ela ainda tomada pela choque inicial.
- Lamento, mas eu gostaria de não ter de contar isso dessa forma, mas... - ela olhou para o chão. - eu quero muito que seja feliz e que o homem que conquistar seu coração a faça sentir respeitada.
- É o contrário do que pensa, que nunca fala mal a suas filhas. - concluiu Cynthia.
- Estão curtas! - a senhora acabou saindo do quarto para de algum modo ter uma conversa séria com ele.
(...)
Semanas depois do fim da relação da mãe, aquela tranquilidade voltou a reinar dentro de casa e na vida de Alice. Porém, era altura da jovem regressar a faculdade e para grande pena de todos a sua falta ia fazer sentir-se por mais alguns meses. No entanto, era sempre bom de lembrar que estava quase a terminar esse semestre, e em breve ela estaria exercendo sua profissão e quem sabe voltar para casa mais cedo e ficar por lá.

Gente, mas que dozinha da Alice....
ResponderEliminarEu fiquei morrendo de dó dela de a mãe acabar por namorar justamente o traste que a fez tanto sofrer no passado...
A mãe estava tão feliz, como poderia saber que a pessoa que te parecia tão boa na verdade era um crápula, não? Ela não tinha como saber, coitada...
Acho que a mãe dela teve ter ficado arrasada por descobrir o mau caráter que namorava sem saber, mas é ótimo ver que ela tomou as dores da filha e acreditou nela, visto que ultimamente há algumas mulheres que não conseguem ver seus companheiros como o errado e acabam até a acusar a própria filha, como se elas tivessem provocado o crápula e pedido por isso. Esse mundo está mesmo virado, né?
Eu simplesmente amo a Cynthia. Não tem como eu não me apaixonar por essa irmã da Alice (mesmo que ela não apareça de fato nos livros originais). Eu tenho pra mim que ela é uma fofa e você a relatou tão bem. Amei-a :D
Eu adorei a one shot, está divina como tudo que você escreve Paulita :D
Olá Alice!
EliminarDe fato esta foi a one shot que mais me deu alguns dores, porque na verdade o que havia acontecido com Alice é um fato do que acontece com muitas jovens por ai, infelizmente. Mas é bom ver que a mãe ficou do lado dela, é certo e concordo com você que a maoria das mulheres preferem acreditar no homem que estão apaixonados ao próprio sangue. No entanto o rumo aqui foi diferente, e melhor mesmo foi ver que a jovem tomou coragem em falar com a mãe e esta ter a coragem de abedicar de um falso amor a troco de uma filha.
Quanto a Cynthia, não existe menina mais doce do que essa, e na verdade quando se é mimada por uma familia assim, não tem como não resistir.
Obrigada mesmo, viu? É tão gratificante ver que gosta do que escrevo e que não cansa de elogiar.
Beijinhos