Quarta-feira, 19 de Outubro
" Ele volta e consigo traz o inferno "
Querido Diário:
Estava em casa arrumando tudo tal como todas as semanas fazia, como as louças de meu almoço ou a roupa que acabara de usar no dia anterior. A minha biblioteca tambem tinha acabado por aumentar nestes últimos tempos na ausência dele.
Era o dia de 19 de Outubro de 1919. Há dois anos que Charles, o meu odiado esposo, tinha saído por aquela porta para a Guerra, e depois daquela maldita carta que o pequeno soldado tosse para mim, nunca mais tinha tido noticias desde entao. Acabei por cair no esquecimento de sua pessoa, pensando piamente na sua morte.
A minha vida estava tao tranquila sem ele por perto. Pensando em ir ao Oeste para dar as aulas que tanto sonhava desempenhar, o meu sonho ainda não estava perdido, sendo que agora tinha uma chance para o reatar e começar do zero. Queria estar rodeada por crianças, vê-las cantar músicas de roda, onde eu pudesse dar a conhecer novas coisas e amá-las como sendo minhas e vê-las crescer. Imaginando sempre o crescimento de um filho meu.
Estava sentada no sofá da minha casa, com um livro nas minhas mãos, imaginando um futuro próximo na minha vida, um futuro feliz, onde Charles não existia.
O trecho do livro dizia a seguinte frase:
“Nem tudo o que é ruim, pode ter um final ruim. Muitas vezes, uma péssima decisão o levará a um destino feito para você, onde o que menos espera poderá a conduzir por caminhos desconhecidos, mas com destino a um lugar desejado à felicidade!”
Estas palavras ficaram na minha cabeça durante toda a noite. Eu já estava pensar em ir embora num comboio rumo ao Oeste com as economias que tinha juntado com o dinheiro que meu sogro, o senhor Frederico Everson me ajudava, das despesas. E era isso que eu faria, começar a minha vida do zero. Decidi que ia começar esta noite mesmo arrumar uma pequena mala com os meus poucos pertences a serem levados. Quando a mala estava pronta, eu fui deitar-me, eu ia apanhar o primeiro comboio que tivessem para um rumo a alguma cidade do Oeste onde eu realmente pudesse ser feliz, sem a perseguição de Charles.
Ao pegar no sono o pesadelo, veio imediatamente. Nele Charles entrava pela porta, sorrindo e abrindo os braços para mim.
" recordação do pesadelo "
“Olá meu amor! Voltei para teus braços! Vem aqui receber o teu marido!” – ele abria os braços e nesse abraço eu sentia que morria. "
Acordei assustada e dizia para mim mesma.
- Foi apenas mais um sonho mau! Um sonho... Ele nao vai voltar! – virei para o lado e tentei dormir mais uma vez, tentando pensar que o seguinte seria o inicio da minha felicidade longe deste inferno de viver.
(...)
Ao acordar depois da péssima noite de sono fui preparar o meu pequeno almoçei depois de lavar-me. Nesse instante ouço uma leve batida na porta e imediatamente vesti-me e falei um “Já vai” por cima do ombro para a pessoa que estava atrás da porta, pois quem seria capaz de bater na porta de uma senhora casada tão cedo? Falei para mim mesma.
Quando abri a porta eu senti todo o impacto dos pesadelos, dos avisos, de todo o mau pressentimento que estava a ter nestes dois anos de sua ausência O meu mundo estava a cair, a minha ideia de fuga a morrer, a minha vida a arder novamente nas maos deste homem horrível.
Estava fardado, sua roupa estava suja de sangue, seu rosto estava cheio de cicatrizes pelas marcas causadas pela guerra. Charles, meu pior pesadelo havia voltado.
- Olá meu amor! Voltei para teus braços! Vem aqui receber o teu marido! – ele disse com as mesmas palavras do pesadelo desta noite. Eu não tinha a mínima reação, ele estava de braços abertos à minha frente. Ele tinha voltado. Como não morreu naquela maldita guerra? Como eu tenho de voltar a levar com esta dolorasa cruz!
- Charles... eu... Como? – ele largou uma pequena mala aos meus pés e beijou-me, abraçou-me. Eu não conseguia reagir à suas caricias, não queria reagir, tinha nojo dele, da pessoa amarga nojenta que ele era para mim. E eu que jurei diante da igreja amar e respeitar pelo resto de minha vida.
Aquele que não honrou seus votos para comigo e nem soube respeitar minha fidelidade, a minha devoção ao casamento. Eu nao merece alguem assim? Eu nao tinha nascido para ser infeliz, o meu lugar nao era aqui.
- Ah minha querida, não diga que estás magoada ainda por causa da história de Karine. Olha antes de voltar para casa, eu certifiquei de que ela tinha ido embora com o amante dela. Pois aquela vagabunda enganou-me tao bem, acreditas? Eu sou apenas o teu meu amor, depois de dois anos não aguentava mais a saudade que senti de ti, do teu cheiro perfumado, da tua companhia. Se permites que eu comente estás mais linda do que nunca. – tornou a colocar os lábios nos meus e ainda assim não conseguia reagir. Apenas suspirei.
Depois que reparou que não ia conseguir nada, foi em direcção ao quarto onde estava a mala pronta. Ao vê-la no quarto, ele perguntou numa voz fria e dura:
- O que significa isto? – ele virou-se para mim. – Estavas a pensar em ir embora Esme Anne Everson? – engoli em seco, pois sabia o que estava por ai a vir. – Responde-me Esme? Abandonarias esta casa? Abandonarias o teu marido? – não houve tempo para responder. Charles começou a agredir-me sem dó nem piedade e depois disso, depois pegou nos meus braços e fez o que quis de mim. Sua propriedade até a morte como ele dizia.
E assim eu voltei ao inferno de minha vida, o casamento amargo, infeliz. Mais um sonho desperdiçado. De volta ao inferno Charles Everson.
Depois que Charles adormeceu, fui para a sala, ler o meu livro, que tinha-me dado aquele frase no dia anterior e lá estava escrito.
“Há muitos caminhos a serem seguidos, e quando descobrir o teu, luta. Faz a tua escolha valer a pena!”
Isto queria dizer que se eu entrei por uma porta para a vida infernal, por uma janela eu sairia para o caminho da felicidade, juntos com quem quer-me bem. Mais uma frase que marcava o retorno de Charles para casa.

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