Carmen
Sentia-me a pior mulher na face da terra desde que a minha única filha havia sido tirada de mim, sem que eu pudesse fazer algo. O meu marido havia me deixado no pior momento, e cada dia sentia o meu continuou mergulhar na minha solidão.
Havia jurado a mim mesma, que nunca ia desistir de procurar pela Alice. E forte como era, confiante, nao podia baixar os braços e deixar que a dor consumi-se parte de mim.
Era dificil lutar, mas a força que eu encontrava para seguir com a minha luta, apenas estava na pequena imagem que me havia restado dos poucos retratos que havíamos fotografado recentes. Eramos tao felizes, naquele dia de seu aniversário, naquele parque... Porem voltando a realidade tambem sabia que tinha sido naquele parque que ela tinha sido tirada de mim, so porque era diferente das outras crianças, so porque tinha o dom de prever o futuro...
Nao consegui conter as minhas lágrimas, era difícil nao chorar. O peso das recordações era tao forte, que a cada instante sentia-me mais vulnerável.
Levantei-me da cama e peguei na minha bolsa saindo para a rua a procura de mais e novas pistas que levassem ate ela. Eu sabia que a chave estava no parque, e que era ai que eu tinha de começar a minha busca.
Sai porta fora e caminhei como se nao houve um amanha. O tempo era uma luta, pelo qual eu andava a meses a travar.
No parque cheguei e novas lágrimas surguiram, o facto de olhar para o baloiço e ver aquela criança feliz, sendo empurrada pela sua mae, fez com que tivesse um flash da ultima recordação, do quanto Alice estava feliz nesse dia, porque havia ganho a flor mais bonita do jardim da escola pelo menino mais bonito.
Flash antes
" - Mãe mae olha o que eu ganhei hoje... - falava Alice feliz com um sorriso de invejar, trazendo na sua mão uma flor tao linda quanto aquela que o desenho do seu vestido exibia.
- Oh meu amor quem deu para ti? - abaixei-me para ficar a sua altura e dar um beijinho no seu rostinho.
- Foi um menino bonito da escolinha... - disse ela entre sorrisos únicos.
- Cheira muito bem e é linda como tu minha querida! - abracei ela com tanta intensidade que quase desmanchamos juntas o botão da flor.
- Eu amo-te mãe! - ela falava as palavras com um brilho no olhar ao afastar-se do meu abraço.
- Eu tambem te amo muito e nunca, mas nunca te vou deixar... "
Flash Agora
Ao voltar dessa recordação lembrei da minha intensa falha para com ela de quanto eu havia falhado no que dizia respeito ao nunca me afastar dela. Contudo nao podíamos prometer o impossível e isso traduziu-se na minha infelicidade.
Agora estava aqui, sentada no banco, observando as crianças felizes a brincar, quando podia ser ela, a minha filha por ai correndo, mas nao, ela nao estava aqui, nao comigo.
Levantei-me do banco procurando por um caminho, mais forças e menos lágrimas. Porque que a minha dor era tao grande a cada instante? Porque que eu sentia uma ponta dentro de mim que dizia que ela tinha sido perdida de vez?
A minha primeira resposta estava no tempo e na intensa e gradual tristeza que este meu coração fraco de mae sentia. A segunda pelo facto de nunca mais receber um unico sinal de vida, um suspiro ou uma carta...
Como uma mae podia viver sabendo que estava uma filha sua no perigo de onde eu ainda nao sabia, precisando da minha ajuda, crescendo e acima de tudo sentir-se abandonada.
Eu sei que ela havia previsto tudo no passado e que eu uma vez mais desvalorizei as suas simples e cénicas palavras. Como podia eu ter falhado na hora de ouvir e de acreditar.
Trilhei passo por passo a volta do parque ate desistir e sentar num outro banco quase perto da margem do rio. Uma pequena criança veio a correr ate mim, ela era tao parecida com a minha filha, embora tivesse uns olhos verdejantes que em seu lugar a minha pequena Alice tinha azuis celeste.
- Olá, meu é Maggie... - apresentou-se ela, nao tendo medo de uma estranha. - Estas sozinha? - ela olhava para mim com intensidade, o que levava-me a pensar disparates. - Tiraram-te a tua filha... - suspirou. - Tens saudades dela...
- Como é que sabes... - mas ela cortou.
- Eu sei tudo e tambem que ela era uma criança especial, assim como eu, e que em ti eu posso confiar. - pisquei os olhos incrédula com a fluidez nas suas palavras destemidas. - Eu consigo ler a mente de toda a gente, e é ai que eu vejo se alguem é bom ou nao.
Nunca tive sequer imaginado uma coisa assim, mas na verdade quando se era mae de uma filha que previa o futuro, tudo era possivel de ser. E a verdade é que esta criança agradava-me muito. Era doce, encantadora...
Passei a mao no seu cabelo e ela aninhou-se mais a mim.
- Onde estao os teus papas? - perguntei e ela afastou-se de mim num impulso no banco, para olhar nos meus olhos com um simples e pequeno marejar contido.
- Os meus papas morreram... eu era muito pequena e... - ela baixou o olhar, peguei nas suas maos dando pequenas caricias, pois sabia que ela precisava de colo. - Fui entregue a um orfanato... - uma pequena lágrima caiu. - Nenhuma familia ficava comigo muito tempo, toda a gente me devolvia, so que eu encontrei uma papa certo... o Silvestre... - sorriu levantando a cabeça.
Os seus olhos descreviam o seu intenso orgulho nesse alguem, a sua intensa felicidade por ter encontrado alguem que a entendia, respeitava e acima de tudo ajudava.
- E onde esta o teu papa agora?
- Deve estar a chegar a casa dentro de pouco tempo, ele falou esta manha que chegaria cedo. - sorri para ela.
Assim foi eu tomei conta dela neste pequeno momento, brinquei, sorri, conversei e parecendo que nao a aquela solidão estava a fugir, por mais mínima que fosse a hora, sabia que valia pena para me tornar mais forte.
Ao estar a empurra-la no baloiço um homem e um menino aproximaram-se para aproveitar do baloiço livre e iniciamos ja por si um simples e longo dialogo. Tambem ele era um pai dedicado ao seu filho, que por sua vez nao era nem mais nem menos que uma criança especial.
Entre risos e coisas mais, fomos caminhando ate a casa onde Maggie dizia morar para entregar aos cuidados de seu pai. Ela estava muito animada, e mesmo tempo cansadinha, tanto que a tinha de levar em meu colo. A brincadeira no parque tinha dado cabe dela.
Ao chegarmos próximos da casa, reparei que a luz estava acesa e ela tambem tanto que saltou logo para o chao e correu ate a porta da entrada. Olhei para o pai do menino, o Eleazar, e seguimos atrás dela.
Entramos dentro de casa, Maggie chamava pelo pai vezes e vezes.
- Pai! Pai! Pai!
Apenas-se ouvia o eco que se fazia sentir, pelas paredes quase vazias.
- Tens a certeza que o teu pai esta em casa minha querida? - perguntei ao abaixar-de diante dela, para pegar o seu casaco e assim pendurar no cabide.
- Sim, eu sei que ele esta aqui. - levantei-me e olhei para Eleazar que na mesma concordou comigo.
Peguei na pequena e ele no seu pequeno e os deixamos numa divisao mais resguardada. Ela protestou continuamente nao querendo ficar oculta dos acontecimentos, apenas querendo de todo o modo ver o pai.
Ao ficarem fechados, eu e o pai de Alec trilhamos um corredor extenso que facilmente encontramos uma porta entre aberta e que por sinal tinha a luz acesa.
- Será o que estou a pensar? - perguntei na incógnita.
- Nao sei... mas se for isso é melhor irmos embora daqui, porque pode ser demasiado perigoso. - amedrontou-se ele, dando tres passos atrás.
- Onde é que vais? - sussurrei, levando as maos a cintura.
Ele deixou-se ficar no mesmo sitio e isso deixou-me bem chateada, tanto que tive de o puxar logo. Meu deus eu era a mulher e ele o homem, so que quem tinha o medo era simplesmente ele.
- Desculpa Carmen, mas nao creio se o sitio certo para ir....
- Estas com medo? És um homem ou és um rato? - nesse momento ele se endureceu todo, e de peito feito puxou-me frente fora.
Sabia que ao usar este termo era o suficiente para um homem ganhar coragem para ultrapassar seus medos.
Chegamos na porta e fiz um pequeno sinal para ele.
- Vamos contar ate 3... ok. - respirei fundo. - 1...2...3... - levei as maos a boca e vi um corpo desmaiado no chao. Olhei para o Eleazar que estava com cara de caso. - Esta morto? - questionei nervosa.
Ele levou aos maos ao pescoço e depois ao pulso procurando sinais, mas nada.
- Sim... - levei as maos a boca escandalizada.
Maggie
Nao gostava de sentir-me presa nesta divisão, ainda mais tinha uma companhia que em nada ajudava, ele so sabia jogar nos seu gameboy. Nao conseguia ler a mente do meu pai em lugar nenhum, embora senti-se a sua presença.
Era diferente das outras crianças nao so pelo facto de ter o poder que tinha, mas por sentir diversas coisas que levavam de tempo em tempo a investigar e so descansar quando as duvidas eram desvendadas.
Neste momento sentia a duvida da presença do meu pai, a falta de pensamentos, era como se a sua mente estivesse oculta a minha sincronização.
- O que foi Maggie? - perguntou Alec pousando a sua mao na minha.
Fiz uma cara feia e levei a mao livre ao meu nariz.
- Alec... eu preciso sair daqui e tu vais ajudar-me! - fui firme.
- Mas o meu papa disse que nao podiamos sair daqui. - ele cruzou os braços.
- Mas é do meu papa que eu estou a procura! - gritei estérica.
- Calma, calma Maggie! - ele descruzou os braços. - Eu ajudou-te, contudo aviso ja que nao quero ter de levar com um castigo por isso.
Sorri para ele e juntos fomos para a porta. A nossa sorte era terem apenas fechado ao trinque o que so veio a facilitar o nosso plano.
- Vem o caminho esta livre! - falei ao espreitar o corredor.
Pouco depois ja Alec estava ao meu lado a busca de encontrar pistas.
- Esta muito silencio! - sussurrou ele.
- Chiu! - mandei ele calar, nao fosse o seu papa e a Carmen aparecerem.
Chegamos cada vez mais perto e parei.
- O que foi? - nao respondi a sua pergunta, apenas estava a ter um momento de leitor e ficar desde logo bloqueada pela tristeza...
Corri para essa divisão onde estavam os adultos e encontrei o meu papa no chao a dormir. Carmen tentou a todo o custo secorrer-me, mas eu soltava-me facilmente dos seus braços. Eleazar reclamou bastante com o filho e lágrimas e mais lágrimas caíram porque o meu papa, minha única familia... estava morto.
- Maggie minha querida ! Lamento! - falava com sinceridade Carmen, voltando a tentar dar um abraço de consolo em mim, mas eu desprendi-me dela uma vez mais.
Agarrei-me ao meu papa, nao o queria largar nunca. Eu acreditava piamente na sua sobrevivência e que apenas estava a dormir. Carmen e Eleazar so podiam estar a confundir tudo.
- O meu papa vai voltar! Ele so esta a dormir... anda muito cansado...
- Nao Maggie, nem tudo é simples assim minha querida... - passou a sua mao carinhosamente nos meus cabelos, encostando-me mais a ela.
- Voces vao levar-me para um orfanato, eu nao quero... nao quero...
Vi uma troca de olhares que congelou o meu coração, pois na cabeça de Eleazar essa era a melhor solução... na de Carmen ainda era cedo para decidir.

Quanta dor a Carmen carrega, não? Aliás, faz quanto tempo que a Alice sumiu? Porque ela parecia bem pequena ainda na lembrança que Carmen teve da filha.
ResponderEliminarOwn... Achei a Maggie tão fofinha! *---* E bem corajosa né? Porque já chegou conversando abertamente com uma estranha, e ainda conseguiu trazer um pouquinho de conforto pra uma pessoa já tão sofrida.
E não é que no parque eles encontraram mais um garotinho especial? Até fiquei curiosa sobre o poder dele... Mas acho que isso será desvendado mais pra frente, certo?
Mas geeente... Eleazar é um covarde, sem mais! Onde já se viu querer deixar a Carmen ir sozinha? Só mesmo chamando de rato pra ele tomar um pouco de vergonha na cara! rsrsrsrs Oh, não creio que o pai da menininha morreu. Que pecadinho!
Que dózinha da Maggie! E ela tentando acreditar que o pai só estava dormindo, que acordaria e provaria que os adultos estavam errados. Perder sua única família assim tão novinha... Mas será mesmo que a Carmen vai deixá-la num orfanato? Espero que eles encontrem outra solução pra isso.
xoxo
Sim Carmen é uma mulher muito sofrida, alias uma de muitas maes que sofrem perdendo seus filhos... Alice desapareceu a pelo menos 1 ano, creio que pertinho de seu aniversário, ela era muito novinha sim, talvez aparentando ter a idade de Maggie.
EliminarÉ Maggie é um doce de menina, contudo muito sofridinha tambem , pois tambem ja passou por suas coisas, que pronto a fizeram crescer. Oh ela é mesmo assim, aberta com as pessoas, nao tem medo, nao tem papas na lingua, para ela ou é ou nao é... E há uma verdadeira razao para ela ter encontrado o conforto em Carmen, e esta nela que voce vai acabar por perceber..
Sim esse garotinho especial é muito engraçado tambem e por vezes tem quase a mesma atitude que o pai ao tentar fugir aos problemas... Sim mais a frente voce vai acabar conhecendo de todos eles...
Sim Eleazar é um homem assim, mas digamos que a dona Carmen soube colocar um termo na coisa e, vejam so quem se tornou rapidamente valente, hein? eheh Sim Lamentavelmente o papa da pequena morreu.. pode crer que é um verdadeiro pecado.. mas a vida é assim nada justa com quem merece a viver, nao mesmo?
Lá esta a inocência de uma criança se mostrando, porque na verdade o que os adultos acham, ela nao acha... mas digamos que a uma hora ou outra ela vai ter de aceitar... Eis a questao que vai certamente discutida no proximo capitulo... e vao aparecer surpresas..
Beijinhos