Lembrava vagamente do dia em que o meu marido tão odioso havia saído, e consigo levado a sua coragem para a guerra. Nessa época eu estava muito feliz por ter a graça de Deus, de ficar sozinha, longe de seus maus tratos, e de sua longa agressividade. E conseguindo assim, com a toda a minha força longe de si, nosso filho, que para mim era mais meu do que seu.
Não queria que o meu pequeno Daniel sofresse o que eu sofri, então precisava de fazer uma longa viagem, de vinculo com a vida que eu devia e merecia ter. Recorri a todas as ajudas possíveis, ate a minha família. Contudo, a minha mãe, recusou dar a mão, por medo. Claro, como podia esquecer o quanto Charles era capaz de tudo para chegar a onde queria. Ele era absolutamente mau, um monstro.
Recorri ás minhas irmãs, ambas no mesmo gesto, recusaram ajudar. Estava a ficar sem ideias de como ficar longe deste maldito lugar, desta maldita vida. Ate que num certo dia, a uma certa hora, a minha sorte bateu de frente quando encontrei um refugio de viúvas de Soldados de Guerra, onde permaneci ate a data do nascimento do meu filho.
Durante esse período de gestação, fiz o que mais desejei, leccionei como nunca antes imaginava leccionar. Ajudei mães e filhos, criei, vi crescer... tantas coisas eu vi, fiz, refiz, e o momento chegou. Daniel estava pronto a sair, deixar a bolsa, o seu cantinho dentro de mim, para viver a vida que a todos nós estava reservada.
Quando ele nasceu, senti um orgulho tão forte em mim, que ate acabei por chorar, por sentir que a minha missão havia sido cumprida e que havia sido capaz de enfrentar meus medos.
No entanto, o sol raiou por pouco tempo, pois o meu filho acabou por ficar doente, gravemente doente. O meus dias tornar-se uma vez mais naquele inferno, naquela agonia. No hospital o seu prognóstico da época era visto como sendo critico, e poucas vezes sabia que estes casos tinham solução. Então o seu destino ja estaria traçado daquele modo.
Chorei dia e noite, não tive apoio da ninguém da minha família, apenas de mim e de uma outra pessoa, cujo ja não recordava bem o nome, mas que sim, ela havia sido uma mãe para mim, em todas estas horas, em todos os momentos.
A hora de saber a verdade chegou, o meu filho, o único filho, o meu Daniel Platt, havia sido levado pelos anjos ate ao céu, onde o Deus menino olhava por nós. Queria morrer, queria ficar com ele, em qualquer parte do céu, mesmo que essa parte fosse tão pequenina, não importava, queria apenas sentir nos meus braços o meu bebe. Era injusto perder o meu filho depois de tanto sofrimento, de tanto esforço para alcançar a vida que queria.
Deus havia-me atraiçoado, como Judas havia atraiçoado Jesus. Sentia-me completamente sozinha, uma vez mais neste mundo, so que desta vez a vontade de viver, não era nenhuma. Bem pelo contrário, queria partir, queria partilhar dessas emoções vividas no céu com ele, com o meu bebe, que Deus não deixou viver.
- Esme onde vais? Não faças nenhum disparate! - implorou a senhora que em todos os momentos no refugio, havia apoiado a minha gravidez, inclusive a minha vida.
Eram palavras, pedidos que pairavam na minha cabeça quando por ventura, caminhava para o fim da vida. Eu queria morrer, queria deixar este mundo, porque para mim ele havia deixado de fazer sentido, a partir do momento em que o meu filho, o meu único tesouro, havia deixado de respirar e em consequência disso fechar seus olhinhos.
Passo por passo dirigi-me ao precipício, o fim de meus dias, minhas horas estava a escassos metros de mim. Podiam achar-me uma mãe louca a beira de uma depressão, mas não, era amor, amor esse que uma mãe nunca perde, e prefere muitas vezes dar a vida a dor.
Parei no ultima porção de terra, antes de atirar. Olhei o céu, o sol brilhava, conseguia ver para alem dele, um sorriso, era o meu filho a dizer um olá.. Fechei os olhos, levantei os braços, e atirei-me sem medos, sem arrependimentos.
Quando cai no chão, senti todas as dores de ossos partidos, do coração fraco, da sensação perdida. Era o meu fim, finalmente. Levantei a mão a custo, deixei que Daniel vie-se buscar-me juntamente com os anjos do céu, que protegiam todos aqueles que amavam.
Eu vi uma luz, era a entrada da morte e saída da vida, contudo quando sentia que a vida era roubada, uma mão, não sei de onde, pegou a minha. Procurei ver com nitidez desfocada quem atrevia-se a tirar-me do meu caminho. Não conseguia perceber o rosto, não conseguia decifrar, só queria morrer.
- Não vou deixar que morras! - ouvi uma voz solene, quase tão longe de mim que não conseguia perceber se era imaginação minha, ou se ja estaria a entrar noutro plano da vida.
Tentei debater-me contra mim mesma interiormente, queria morrer, deixar este corpo maltratado e partir rumo ao espírito, mas tal não estava a ser fácil de alcançar.
(...)
Três dias depois de todas essas estranhas mudanças, de todas essas sensações que de morte que nada tinham, abri os olhos. Assustei-me absolutamente com aquilo que via, sentia-me uma outra pessoa, encarnada em um corpo diferente.
Não estava no céu, mas dentro de uma divisão que pelo aspecto nítido que os meus olhos viam, agora absolutamente bem, era um quarto, e ao meu lado tinham um belo homem que não sabia se era real ou se imaginação do fruto da minha mente.
Desviei o meu olhar quando percebi que um outro homem, embora este mais jovem, olhava com seus olhos perturbados em mim, como se esperassem uma reacção devastadora da minha parte. "Mas porque me olhas assim?" questionei a mim mesma.
Centrei o meu olhar uma vez mais no foco da divisão. O pó era visto como partícula suspensa no ar, as cortinas das janelas com um tecido tão notório de detalhes que nunca antes havia percebido. "Será que não via bem?" pensei comigo, logo um jovem ao meu lado, riu. "Não sei onde esta a piada" repensei, contudo a sua postura manteve-se.
Decidi que era hora de poder falar, expressar a minha dignação por não deixarem sozinha naquele lugar, e morrer a mercê do tempo.
- Porque estou aqui?
Assustei com a minha própria voz, levei a mão ao peito, o meu coração, esse eu não sentia, esta não era eu. Logo uma mão de um belo homem, aquele pelo qual vi em primeiro lugar e ao qual achei ser um anjo, pegou nela fazendo breves caricias e assim bem de seguida a beijar com delicadeza.
- Eu salvei-te! - respondeu ele com cuidado na voz, e um tom bem cordial, tipicamente de anjo.
Ao contrário do que em outro momento senti, não conseguia sentir o batimento do meu coração, como se ele tivesse sido arrancado de mim, como se estivesse morta por dentro.
- Porque o meu coração não bate? - questionei, eles entre olharam-se por alguns segundos.
- O Carlisle teve de recorrer a um método.. - cortei.
- Que método? - comecei a ficar nervosa e ao mesmo tempo medonha.
Logo o jovem pegou nos meus braços com alguma agressividade, embora não magoa-se. Estranhei porque normalmente Charles quando tocava em mim de um modo agressivo, sentia a dor, e neste momento, tal não se reflectia.
Respirei fundo, e ate isso achei desnecessário, tanto que só fez com que a minha garganta ardesse mais do que ja ardia, como se estivesse entre chamas do inferno interiormente.
- Porque a minha garganta está arder? - assustei-me uma vez mais com a minha voz.
- Esme... - proferiu o meu nome o homem pelo qual havia sido chamado de Carlisle, pelo jovem rapaz, em outro momento. - Eu tive de... transformar-te... - olhou para a minha mão, depois para os meus olhos. - em vampira..
- Vampira??? - "ups eu disse isto alto?" pensei comigo. - Sou uma Vampira? Porque não me deixas-te morrer... - embora a minha indignação e pergunta fosse dirigida apenas a um homem, que acreditava ter um boa razão para tudo isto.
- Sim.. era a única forma que o Carlisle tinha para salvar a tua vida, ao invés da morte. - quem respondia era o rapaz com frieza. - Acredita, ele nunca fez isto, se não a mim, e agora a ti... por isso é por seres especial, e como és especial, mereces uma segunda chance!
"Especial?" questionei a mim mesma. O que uma mulher como eu, sofrida, e amargurada pela vida, tinha de bom, não? Tentei levantar, e ate rápido demais, assustei obviamente com isso. Quando dei por mim, estava automaticamente em pé, de olhar estarrecido na porta.
- A escolha é tua, se quiseres ir embora! - falou ele, o anjo do olho dourado.
- Não, não quero ir embora! - respondi involuntária, ja não conseguia controlar as minhas próprias acções, minhas próprias palavras.
E por mais estranho que tudo pudesse estar parecendo, eu ja não sentia que a morte era a melhor solução para mim, e que este homem que dizia ter salvo a minha vida, não me era desconhecido. Tanto que ele sabia o meu nome, e isso eu nunca antes havia proferido, certo?
Respirei fundo umas quantas vezes, levantei o meu olhar de encontro a ele. Tinha tanto para perguntar, mas tão pouco para responder, pois a dor da chama da garganta estava a queimar tanto que acreditava ficar arder se não acaba-se com esta sensação.
- Acho que é melhor ela caçar! - disse o jovem para o Carlisle.
- Anda Esme! Não precisas de ter medo.. - esticou sua mao de encontro a minha, involuntariamente a entreguei, deixando que ele me guia-se, contudo sete passos a frente parei, petrificando o meu olhar em que ficava para trás. - O que foi? -perguntou ele.
- Ele não vem? - foi tudo o que consegui perguntar, pois seu nome eu não sabia.
- O Edward ja caçou! - "Caçou?" perguntei a mim mesma.
Então Edward era o nome do jovem rapaz que não parava de fazer a minha cabeça ter boas impressões. Sim ele embora num aspecto mais tardio da vida, lembrava meu Daniel em parte de suas feições. Era doce, frio, mas calmo.
- Hum.. - foi tudo o som que deixei escapar, ao voltar a olhar na direcção da porta e assim por lá sair.
Trilhei um caminho de terra batida, terra essa desconhecida e aparentemente fofa para meus pés. Parei apenas ja depois de talvez uns 20 Km. Carlisle durante todo o caminho nunca havia largado a mão.
Ele era mesmo muito protector, e isso era coisa que deixava-me profundamente encantada e a pensar que talvez esta segunda chance, seria a minha derradeira felicidade.
Caminhei bem rápido, não sabia como explicar a velocidade que usava, mas que a sensação de cansaço, essa não existia. Era estranho, mas ser vampira, era algo que nunca na minha cabeça havia passado. Ok, tudo era novo, e como tal eu estava a aprender.
Paramos o passo quando ja estávamos num cume de uma montanha. O céu estava com que estrelado, era como se eu não tive dado conta da queda da noite. O tempo a minha volta estava a passar tão rápido como nunca antes havia sentido.
- Esme! - disse meu nome, olhei ele automaticamente. - Agora preciso que te concentres, porque vamos caçar... - explicou.
Fiquei na duvida por um tempo, porque o termo caçar, era para mim absolutamente estranho, e visto como uma caça de arma, e neste caso eu não tinha nenhuma e pelo que via de Carlisle também não.
- Como vamos caçar, se não temos armas? - questionei.
- Ai é que tem enganas! Nós vampiros temos uma arma poderosa, as nossas presas, são a arma mais forte de todo o universo.
Fiquei com que sem reacção, e sem saber se devia ficar contente ou se triste. Eu matava com a minha própria força qualquer animal que surgiu-se na minha frente, assim como com qualquer humano. Arregalei os olhos quando pensei nessa ultima opção.
- Vou caçar que tipo de presas? Humanos? Não quero ser um monstro! - sussurrei deveras perturbada, ele passo suas mãos nos meus ombros.
- Calma Esme! - sussurrou no meu ouvido. - Estou aqui para ajudar-te. - virou-me para si, ficando assim de frente. - Nós Cullen's, temos uma dieta diferente ao habitual dos outros demais vampiros. Caçamos animais, dai a nossa dieta ser mais equilibrada e fácil. Pois assim não fica nenhum humano em risco, e por outro lado, facilmente conseguimos relacionar com eles.
- Estas a querer dizer que eu posso voltar a ver a minha família? - ele baixou o olhar cerrando os lábios numa linha.
- Não... - foi tudo o que ele disse, logo entristeci. - Entende uma coisa, a partir do momento em que és dada como desaparecida, e em outra circunstancia como morta, não tens como voltar.. - explicou ele. - Para a tua família, ja não existes, e sem querer ser indelicado.. porque queres tanto voltar a vê-los, depois de toda a recusa? - olhei o chão, ele tinha razão.
- Como sabes isso tudo? Eu nunca falei nada..
Sussurrei, levantando gradualmente o olhar ate ao cimo das árvores, procurando sentir a brisa da noite.
- O Edward... - olhei para ele espantada. - Ele tem um dom de ler a mente das pessoas, e pelo que sei, ele leu isso em tua mente.
- Também leu que eu perdi um filho? - questionei.
- Sim.. mas eu ja sabia, alias eu estava naquele hospital quando soube da morte daquele bebe.. eu segui teus passos de perto, e vi a tua despedida da vida..
Tentei voltar um pouco a minha mente ao tempo anterior, e nesse escasso espaço, lembrei de um mão, um homem.. era ele.
- Porque fizes-te uma coisa dessas? - voltei a questionar.
- Porque a morte é uma escolha muito aprofundada, não certa e única.
Voltei a encarar o chão, e em segundos ele estava na minha frente de olhar cravado no meu rosto, de mão no meu queixo. Levantei os olhos, ao encontro dos seus ele nossos rostos se juntaram gradualmente.
O beijo surgiu, eu consegui retribui-lo como nunca pensei fazer, enlacei os meus braços no seu pescoço. Era intenso aquilo que ambos estávamos a sentir, pelo menos eu assim achava.
Quando terminamos o iniciado beijo, ele olhou para mim com um sorriso doce, e delicado, pegou minha mão e levou-me a caçar.
No fim de caçar pelo menos duas presas, de sentir aquele suculento sangue passando em minha garganta, de um modo lento, e maravilhoso, puxei ele para sentar num cume, e observar as estrelas.
- Vem, quero que venhas comigo!
Ele seguiu-me, não protestou. Sentamos, ele bem juntinho a mim, de mão dada.
- Quando era pequena, lembro de observar as estrelas da minha casa de árvore.. - quase ri com essa recordação.
- Casa de Árvore? Isso não é coisa de menino... - sussurrou, beijou meu rosto, acariciando com a mão livre, o meu cabelo a ondular por conta do vento.
- Sim.. e respondendo a tua afirmação, casa de árvores também é coisa de meninas, ta bem? - rimos juntos.
Depois de risada aqui, risada ali, o meu ar tomou um serio aspecto. Ele olhou logo para mim, com perguntas descritas em seus olhos cristalinos.
- Que cara é essa?
- Há uma coisa que esta a fazer duvida.. - ele ergue uma sobrancelha. - O Edward havia mencionado esta tarde.. que tu apenas transformavas pessoas, especiais.. - ele cortou.
- Não tem haver com o facto de ser especial.. tem haver com o facto de ter pena, achar doloroso o facto de existirem vitimas que inocentes a morrer.. - expressou. - O caso dele, foi muito devastador.. - tomei a maior atenção. - Estava a trabalhar num hospital em Chicago, na época... quando por ventura, muitas vitimas que deram entrada com febre espanhola.. é claro que não podia salvar toda a gente, seria um risco muito grande e tendo em conta o ponto de vista de muitos vampiros, a vida de uma cidade, um estado podia ser fatal.
- Foi ai que encontras-te o Edward? - interrompi.
- Foi.. Numa certa manha, ele estava num quarto, abrigo de muitas vitimas, a sua mãe e o seu pai, estavam juntamente a padecer da mesma doença. Alias.. o pai acabou por morrer primeiro. - fiquei com pena. - Ele era muito jovem para morrer, contudo estava indeciso, porque de algum modo estaria a roubar sua vida, que não seria muita, pois as suas horas eram poucas. - ele focava o seu olhar num ponto que não percebia ao certo. - A mãe dele, antes de morrer, implorou para que eu pudesse salvar a vida de seu filho.. não pude recusar um pedido de alguém que estaria a morrer, então... eu tomei como certo, salvar a vida dele. Iniciar um vida nova, longe da minha tamanha solidão.
- Transformas-te ele ali mesmo?
- Não.. fingi o seu habito, deixei que todos os atenciosos médicos percebessem que ele havia morrido, e quando sozinhos, transformei-o... passaram 3 dias após o ocorrido.. e tal como tu, ele sentiu muitas outras sensações, entre raiva e dor.
- Ele tem um ar tão triste, tão sofrido.. - comentei.
- Ele não aceita de total modo a vida que tem, ele esta a passar por uma fase transitória, complicada, rebelde.. mas acredito que com a tua ajuda, isso possa passar. Ele precisa de uma mãe, para fornecer todo o amor que a sua pode devolver.
- Eu vou dar todo o que eu puder, e ate aquele que não tenho.
- Tens um bom coração Esme.. muito bom coração.
E ai beijou uma vez mais os meus lábios macios, unindo aos seus. O seu beijo era tão inexplicável, tão doce, tão maravilhoso, que me sentia nas nuvens. Contudo, o meu viajar, tinha de terminar, eu tinha uma missão a cumprir, tinha um raparizinho para ajudar. Eu acreditava que com amor, e afecto tudo se pudesse resolver. Edward só precisava de uma mãe, não uma substituição, porque nunca conseguiria ser aquilo que outra pessoa era, mas podia ajudar, e isso eu não ia abrir mão de fazer.

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