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One Shot - Jane - Mudar de Vida


Lá ia o tempo em que quando chegava das aulas cansativas de física, que eu sentava no sofá da sala a comer as minhas favoritas bolachas belgas e sem grandes embaraços sentava com as minhas botas que tanto o meu pai chamava de tropa, bem em cima da mesinha de centro.

É claro que a minha mãe quando me via nesses preparo, ficava bem bravinha, mas eu como era esperta como um alho, contornava bem a situação.

Pois é, quem me dera voltar nesse tempo feliz e rinhoso, que nos dias de hoje já nada era como antes. A minha vida tinha mudado e muito. Para lá ficavam as recordações de um conforto, hoje inatingível.

A verdade é que as condições que hoje vivia era puramente por minha culpa, eu havia cometido um erro muito grande aos olhos de quem é adulto o suficiente para perceber que um adolescente em flor de idade era capaz de fazer.

Tudo bem, eu tinha abusado da bebida naquela noite, era um festa de final de verão que todos os fins de temporada se realizava, eu tinha saído e conduzido embriagada por essa estrada fora, não medindo perigos que podia eventualmente causar, mas a verdade é que aconteceu.

Eu matei alguém, embora olhando bem para os erros absurdos que havia cometido eu não recordava ao certo se a pessoa em questão era velha ou nova, mas o que é certo é que ela havia não resistido aos ferimentos e morrido pouco tempo depois.

Fui apanhada pela policia, condenada aos dias de inferno que vivia nesta maldita prisão. Eu queria mudar, queria esquecer, mas a memória não se apagava, e eu todos os dias da minha vida acordava relembrando um pesadelo sem fim.

Era criminosa, eu havia cometido um grande crime, os meus pais não me olhavam mais como antes, simplesmente me haviam virado costas e eu agora sozinha no meio de estranhos, aprendia a começar do zero.

Era segunda-feira, dia de limpezas semanais, e eu ainda não havia saído da minha humilde e seca cama para realizar essa tarefa quando por ventura uma guarda chamou a minha atenção trazendo consigo uma chave na mão.

Levantei-me imediatamente, e esfreguei bem os olhos para ver como melhor precisão se ela vinha ou não para abrir a minha cela.

- Menina Jane! - chamou por meu nome, logo sorri. - Pode tirar esse sorriso, porque hoje vai ser presente a juiz novamente! - logo baixei o olhar triste.

Depois de uma muda de roupa feita, essa mesma guarda fez o favor de me acompanhar ate ao sala de julgamento, onde já muitas pessoas, tantas delas desconhecidas ou simplesmente a espera de julgar, esperavam o veredicto do supremo.

Olhei em várias direcções e muitas delas eu não encontrava os meus pais, talvez por sentirem vergonha da própria filha e por não querem de algum modo encarar a verdade de meus últimos 3 anos neste sitio horrendo.

Sentei na cadeira do réu, e esperei a entrada triunfante de um senhor cujo pelo aspecto devia ter meio de idade. Segurei as lágrimas para não fraquejar na frente de todas estes rostos, de todos estes olhares, e ergui a cabeça, esperando e apenas respondendo em pensamento a cada calunia ouvida em apenas um sussurro baixo.

- Perante a justiça, esta jovem mulher foi condenada a 5 anos de prisão efectiva, mas uma vez que já completou os 3 primeiros anos, é lhe concebido a liberdade condicional, por períodos de apresentação aos devidas autoridades. - engoli cada palavra que o juiz lia no texto. - Por isso se por algum erro, cometer um deslize, retoma a sua moradia nos nossos estabelecimentos prisionais para continuar a cumprir pena. - acenei que sim, tomando nota mental. - Sendo assim, Jane esta em liberdade! - suspirei aliviada e com vontade de sorrir. - Dou por encerrada esta audiência.

Tempo depois a sala foi vazando, eu estava finalmente livre e pronta para iniciar uma vida sem abusos, sem excessos acrescidos de qualquer actividade errada. Queria abraçar o meu pai, a minha mãe, enfim todas as pessoas pelos quais sentia tanta falta, mas eles não estavam presentes, então iria sair daqui e seguir ate casa, começar a minha vida juntos deles, como sempre havia sido.

Ao sair pelas portas para a liberdade, eu tive vontade de gritar "ESTOU LIVRE", mas contive esse sentimento de dever cumprido e segui em frente, apanhando um táxi que me levou ate a casa, mas ao contrário do que esperava nada era como antes.

Paguei a corrida e tirando as minhas sacolas que eram poucas fui ate a porta, onde toquei a campainha e ninguém atendia. Olhei para os lados a ver se havia algum indicio de que estivesse alguém em casa e na possibilidade não querer abrir.

- A menina esta a procura no sitio errado! - falou uma senhora idosa de andarilho. - Já não vive ai ninguém, os senhores dessa casa, mudaram para a Austrália, faz pelo menos 1 ano e meio.

A noticia bateu feio dentro do meu peito, os meus pais haviam abandonado a própria filha e agora sozinha e novamente a mercê do mundo eu estava.

- Obrigada senhora! - sorri amável.

Vaguei pela rua fora, eu parecia perdida e na verdade eu estava, ainda não conseguia acreditar no que a minha vida havia se tornado, um nada que não era tudo. Eu amava tanto eles, e no entanto ele nem me amavam, se não que motivos teriam eles de abandonar uma filha numa cidade, num pais.

Então a partir deste momento ia mudar de vida, deixar para lá a vida de conforto de ar quente e de boa comida para viver da rua e dos resididos de lixo que as pessoas deitavam para esses contentores.

Os meus dias tornaram-se assim, eu comia do chão aquilo que alguém pisou, eu bebia as águas da corrente do rio, usava os caixotes para dormir, e no fim de contas ate conseguia de uma forma ou de outra ganhar uma esmola de pessoas simpáticas.

A uma determinada altura ate arrumadora de carros me tornei, só para poder ganhar uns trocos e poder assim tomar um café quente como já não sabia tomar a muito tempo e que tão bem sabia. E numa certa altura, uma senhora muito simpática e morena ao me entregar a esmola começou a olhar fixamente para mim, como quem analisa um objecto certo para comprar em uma loja.

- A menina vive a muito tempo na rua? - perguntou ela levantando os seus óculos para que eu pudesse olhar seus olhos escuros e profundos.

- Algum tempo! - respondi eu sem rodeios, e vergonha.

- E estaria disposta a mudar de vida?

- Claro que sim, por uma vida melhor eu faria qualquer coisa, porque viver na rua é muito complicado e o sofrimento de sentir sozinha ainda é maior. - expressei o meu pesar.

- Bom, eu penso que posso ajudar com alguma coisa, eu sei que não é muito, mas para quem não tem nada, já será bom... - falou a senhora animada. - Eu penso que posso arranjar um emprego para si, na minha casa como empregada e melhor de tudo é que ofereço um alojamento que não tem, e boa comida, que diz?

- Eu nem sei como agradecer tanta generosidade!

Falei com tamanha alegria e já tinha lágrimas nos olhos de tanta bondade chegar ate a mim depois de tanta dificuldade que eu havia passado.

- Não se fala mais no assunto e a menina vem comigo! - sorri. - Venha, primeiro irá tomar um banho em casa, comprar umas roupinhas e depois irei explicar todos os procedimentos há casa. - indicou ela enquanto dirigíamos ao carro que mais parecia uma bomba saída daquelas revistas da Magazine que tantas vezes eu lia por curiosidade em períodos que estava na sala de lazer.

De banho tomado, de roupas novas e de uma de boa comidinha no estômago, estava como nova. A senhora dona Garcia era muito amável, e pena tinha de ser tão cedo já viuvá, mas de certo o destino era assim e nós apenas tínhamos de aprender a lidar com ele, consoante a suas decisões.

Tomei nota de todas as suas indicações, incluindo a de ter real atenção as crianças mais novas que eram já pela estrutura trabalhosas de lidar e também preguiçosas de realizar determinadas tarefas. Quanto aos mais crescidos era chamar atenção para quando estivessem a fazer disparates.

Ao passar no grande corredor que mais parecia uma exposição de quadros de requinte de uma galeria de arte, encontrei um retrato da família e lá vi algo que não lembrava de ter. Embora esta família fosse pela descrição dois pais e quatro filhos, a minha era apenas eu, o meu pai e a minha mãe.

Ok, é certo que a família não se media pelo tamanho ou pela quantidade, mas pelo amor e afecto... e isso eu sabia que aqui iria ter em muito e de sobra, porque pelo que conseguia detectar destes rostinhos tão doces eles pareciam uns anjos como eu um dia fui quando criança.

- Olá! - ouvi uma vozinha de criança de talvez nos seus 6 aninhos a saudar e a puxar pela minha saia.

Abaixei para a pegar no colo e sorrir amável a esse rostinho de anjo, que era difícil ser indiferente.

- Olá! - saudei de volta a si. - Sou a Jane e vou trabalhar aqui em tua casa, porque a tua mama contratou os meus serviços. - respondi eu. - E como te chamas princesa?

- Sou a Emily! Então vamos brincar muito e fazer muitos desenhos para a mama e bolinhos para a vovó! - falou ela toda entusiasmada a contar pelos dedos as suas tarefas.

- Quem sabe!

- Anda vem, quero mostrar o meu quarto que é o mais lindo e de princesa! - saltou para o chão puxando uma vez mais a minha saia.

- Devagar, se não vais cair! - alertei ela, mas era impossível parar uma criança entusiasmada.

Então, ela parou quando chegou ate a porta, e cruzei os braços a espera. Ela fez uma careta e por fim logo abriu a porta, e ao olhar fiquei a sentir que estava a viver um paraíso de princesas. Afinal a Disney existia e não precisava de ir a Paris para a visitar, porque ela já estava dentro deste grande quarto.

- Gostas? - perguntou ela a saltitar.

- É lindo! - respondi maravilhada e quase sem palavras para a doce menina.

- A mama faz de tudo para agradar!

Sorri para ela e logo pegou numa boneca daquelas de colecção e começou a mostrar para mim como se eu fosse um modesta compradora numa loja de artigos de criança. Sim, porque o seu quarto mais parecia uma loja de brinquedos, do que na verdade era.

Tempo depois a pequena Emily continuo por mostrar os quartos dos seus irmãos mais velhos.

- Aqui é o quarto do Ben! - disse ela ao abrir a porta branca e encontrar um intenso e maravilhoso estúdio azul e branco.

- Ben? - perguntei.

- Sim, ele é o Benjamin, mas ele gosta quando a gente trata por Ben, lembra o seu desenho animado preferido... o Ben 10... - justificou a doce menina.

De seguida abriu a porta de outro quarto que de certo pertencia a outra irmã e pelo aspecto só podia ser de alguém adoradora Hello Kitty.

- Aqui é o quarto da Rosalie, mas ela é muito complicada e gosta de ver tudo certinho... - fez uma careta a pequena que logo não resisti em rir. E aqui bem ao lado é o quarto da Ashley, com ela tudo é diferente, é um amor... - sorriu e correu ate a cama dando um saltinho. - Ela não se importa se alguma coisa estiver fora do sitio!

Estavam conhecidos os quartos dos filhos da dona da casa. Todos eles eram autênticos e resplendidos, sendo que o da pequena Emily era o que melhor suscitava a minha vida de criança adormecida.

(...)

Semanas depois de já estar bem ambientada com o novo emprego, com a nova vida. Eis que num dia em que a paz e tranquilidade já reinava, que logo acabou quando por ventura a porta da entrada abriu e de lá saíram as irmãs mais velhas em plena discussão de meter colher e ai pelo meio.

- Tu viste o que fizes-te? Eu vou contar a mãe, ouvis-te Ash! - resmungou a Rose ao pousar o casaco no cabide.

- Eu quero lá saber, tu mereces-te! - respondeu a irmã por cima.

Tive vontade de sair de onde estava a poder ser útil e amenizar o clima tenso que existia entre as duas irmãs, mas o pequeno Ben alertou para o facto de as irmãs andarem sempre assim, e para não ligar. Só que eu era mulher e quieta não era do meu feitio ficar. Então não resisti e entrei na sala de pano na mão.

- Olha já chegou a criadagem! - resmungou a Rosalie ao levantar do sofá e dar as costas para mim ao subir as escadas.

- Não ligue ao que a minha irmã diz, ela é mesmo assim sem EDUCAÇÃO! - gritou a ultima palavra por fim.

Logo a outra do alto da escada respondeu:

- OLHA QUEM FALA!

- Não faz mal! - disse eu. - Vai querer comer alguma coisa menina? - perguntei prestável. - Acabei de fazer um bolinho que sei que é dos que gosta e esta quentinho! - sorri ao pousar o paninho no ombro.

- Por acaso estava mesmo a pensar em comer um doce e um bolo é uma boa ideia! - sorriu e seguiu a minha frente para a cozinha.

O tempo foi passando e ao arrumar coisa aqui, e coisa ali e ao dar uma olhada no relógio dei conta de que era hora de ir a rua esperar a carrinha trazer a pequena Emily.

Então foi isso mesmo que eu fiz, a esperei como quem espera um filho ou um irmão, e quando ela saiu da carrinha, correu e saltou para o meu colo cheia de sorrisinhos e beijos doces.

- Ela gosta mesmo de si, nem me deixa a pousar no chão que sai logo a correr! - explicou a senhora.

- É verdade! - falei. - Fiz um bolo muito bom que tu vais adorar... - ela sorriu animada, e eu peguei na sua mochila.

Depois de servido o lanche, foi hora de dedicar aos deveres de casa que como todos os dias analisava os cadernos sabia que hoje não seria excepção não ter. Sentei ela na cadeirinha do escritório de estudo, acendi a luzinha e tirei da sua mochila com sua ajuda os seus livros e cadernos de colorir.

Era gratificante ver como ela ria e sorria a cada resolução feita sozinha e como ela tinha vontade de brincar com os números e com as letras. Em tudo ela lembrava eu, que era uma coisa por demais para aprender.

Quando chegou a noite, e como o jantar já estava pronto, reuni os meninos a mesa, porque a mama deles devia possivelmente estar a chegar. Mas impossível era encontrar tranquilidade quando as duas irmãs mais velhas começavam suas guerras complicadas entre si.

- Por favor a mesa não! - alertei, mas foi como quase arrancar um fio de cabelo de alguém que já estavam as duas a lançar pedaços de pão uma a outra. - Já chega! - gritei e impossível foi não preparar a mama delas a ver um espectáculo destes.

- Meu deus! - falou a senhora dona Garcia espantada. - Uma pessoa chega em casa depois de uma jornada de trabalho e tem de ver isto? - questionou retóricamente e o silencio cobriu o resto do cerão.

No entanto com o passar dos dias, e dos meses as coisas foram ligeiramente melhorando em casa quando a Rosalie recebeu um diploma e com isso uma entrega de bolsa para um curso na cidade próxima, o que queria dizer que passaria mais tempo fora e isso aumentava a probabilidade de silencio.

Desde então o ambiente alterou por completo, as discussões já não eram como antes, pois a Rosalie apenas vinha ao fim-de-semana a casa, e Ashley não tendo a irmã para irritar, passava mais tempo com as amigas e quando em casa ate ajudava na cozinha, por mais que eu dissesse que esse era o meu trabalho, e não o seu e que ela sendo a filha da minha patroa tinha era de estar ora a estudar, ora a divertir-se.

Mas era impossível, ela era demasiado doce para esse tipo de personalidades e então acabava mesmo enfornada comigo a preparar bolos e biscoitos que a pequena Emily gostava muito de tomar com o seu chocolate quente.

E assim eram os meus dias, na nova realidade que a muito não sonhava que existia depois de evidentemente a minha vida ter mudado, mas a verdade é que eu estava muito feliz, e isso não era de desprezar, porque esta família já era como minha, dado que a verdadeira, aquela que segundo o nosso instinto nunca abandonava, havia feito o inesperado, no entanto Deus sabia perdoar todas as linhas tortas que os seus fieis cometiam, então eu também saberia perdoar o meu pai, como a minha mãe.

Comentários

  1. Puxa é difícil acreditar que esses pais tiveram tal coragem...pobrezinha.

    Ela cometeu um erro, um muito grave mesmo, mas a familia dela deveria acolhe-la, já que ela demonstra mesmo estar arrependida de coração.

    Quando ela foi solta eu achei que os pais a expulsariam, mas ele terem sumido me pareceu muito pior....

    Pobrezinha morando na rua... Imagino o sofrimento que a pobre Jane deve ter sentido na pele... O bom foi que a policia não a prendeu por vadiagem, né?

    Foi muito bom ela achar uma bondosa alma que a acolheu, ela tirou a sorte grande. Eu tive pena da Maria também, ela ser viuva nova e ter 4 crianças para cuidar não devia em nada ser fácil, mas como ela tinha um bom coração acabou topando com sua futura ajudante.

    Eu amei a fic, ainda mais quando a encrenqueira da Rose mudou de vez, ehehhee.

    Beijinhos

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    Respostas
    1. Infelizmente pais como os da Jane existem por ai, e todos os dias pessoas sao presas, pessoas sao abandonas nas horas em que mais precisam de apoio, de colo.
      É certo como voce disse e muito bem ela cometeu um erro grave, mas ela pagou por ele ate mais do que eu achei possivel para uma jovem suportar a dor e o inferno da prisão. Mas a verdade é que apesar de tudo o que ela passou, houve algo que nunca perdeu, a esperança de ser livre e ainda mais mudar de vida.

      É nao em pior coisa que chegar a rua e nao ter aquele apoio da familia que no fim de contas é quem devia estar junto dela, nao?

      Nao sei o que é viver na rua, mas pelo que vejo e ouço falar é um pesadelo rotineiro, muito sofrimento, e de certo que tudo isso a Jane passou, ela sofreu, cresceu e amadureceu.

      Sim a Maria foi um anjo caido do céu que deu uma oportunidade boa a essa menina que nao tinha nada mais a perder quando tudo ja havia perdido. Sim uma mae de 4 filhos e viuva me deixou com o coração nas maos. Mas acontece todos os dias tragédias assim.

      Rose tem fama de encrenca, nao? haha

      Que bom que gostou. :D

      Beijinhos

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