Pois bem eu não ia ficar a observar paredes, porque dia lindo e na verdade a minha vontade era de chamar a avó para sentar comigo e contar histórias, que sabia que ela conhecia tão bem e ao mesmo tempo tinha um baú de livros de "Anita" que um dia a tia Alice confessou que era apaixonada por essas histórias e que a sua favorita era de "Anita e o baile de Máscaras" talvez por ela adorar tanto as suas roupas lindas e por ver que a história girava em torno uma procura de um vestido certo para a noite, contudo a mama já me havia contado a história de "Anita perdeu o Cão" ao qual chorei sem parar ao ouvir, que no fim ainda bem que o pantufa apareceu.
Mas no momento não estava para recordar essas histórias, queria era que a minha avó contasse uma que eu ainda não conhecia e que depois podia contar a mama para ela ficar a conhecer, ou ate mesmo partilhar para as primas.
Comecei a correr pela casa animada a gritar:
- Avó, avó! - ela estava na sua salinha de desenho quando eu entrei sem pedir licença ao qual fiquei um tanto envergonhada e com medo de receber uma repreensão, que no fim de contas o papa acabaria mesmo por dá-la.
- O que foi meu amor? - perguntou ela largando o lápis que tinha na mão, e acenar para eu sentar no seu colo.
Fui ate ela e sentei na sua perna, sorrindo e ao mesmo tempo com o rubor no meu rosto ainda quente e constante. Ela sorriu com aquele ar de quem falava que estava tudo bem e que já tinha passado. Então tirando a minha preocupação, falei:
- Avó podemos fazer uma coisa boa? - ela ergueu a sobrancelha curiosa, logo continuei. - Eu estava a pensar em ir a caça do baú de histórias e e tirar uns dos livros de histórias da tia Alice sobre a "Anita" e tu poderes ler para mim. - ela sorriu amável, difícil mesmo era conseguir resistir.
- Claro que sim, ate porque já terminei o que fazia aqui. - olhei para os rabiscos e nada entendi, pois era coisa para adultos.
Saltei para o chão toda sorridente, puxando pela avo ate ao sótão, que era onde tudo ficava guardado e que bem, porque estava tudo como se fosse um museu. Agora sim entendia o porque do avô falar que é preciso preservar, talvez se referi-se as coisas que tem guardado.
Ela subiu comigo ate ao cimo e ao ver o baú velho e grande corri ate ele abrindo a tampa que rangeu, talvez por estar com pouco uso, mas ainda assim não foi o suficiente para me impedir. A avó Esme ajudou a abri-la, e depois ficamos as duas a olhar a vasta colecção de livros, todos eles eram interessantes, e todos esses livros contavam histórias diferentes, mas todas elas sobre a mesma personagem, "Anita".
Nesse momento vidrada, a avo retirou um livro ao acaso e mostrou para mim com um sorriso.
- Que tal "Anita e um domingo diferente"? - perguntou ela.
Fiquei pensativa e lembrei que era uma história pelo qual não conhecia e que seria uma boa ideia para ouvir, já que hoje também era domingo e talvez também fosse diferente.
- Pode ser esse mesmo. - ela sorriu e com cuidado fechou o baú, pegando na minha mão indo ate ao grande cadeirão e sentar-me no seu colo.
Ela abriu o livro e logo vi uma imagem central de dois amigos de bicicleta sorridentes e prontos para suas aventuras, e só então a avó iniciou a sua narrativa.
- Hoje é domingo. Anita e o Francisco, o filho do guarda-rios, levantaram-se cedo para visitar panteia. - eu olhava avó com cuidado e ao mesmo tempo com mil questões sobre o que era uma "panteia", porem não interrompi. - Esta panteia é uma lagoa com uma ilha no meio. - sorri ao perceber.
- Oh eles vão para um sitio bonito. - apontava para a gravura ao lado, logo ela retomou.
- "Vais ver os patos reais, as garças-reais, os pica-peixes... - explica o Francisco. - Vamos entrar por aqui. É mais perto." - a avó imitava bem a voz do menino. - O portão esta fechado a cadeado. Não é nada fácil passar com bicicletas. - ela olhou para que logo acenei que sim, lembrando que as bicicletas são pesadas. - Numa placa junto a entrada, está escrito: «interdita a pesca, excepto ao domingo. É proibida a entrada a cães.»
- Oh não, mas o pantufa entrou com eles para esse sitio! - fiquei preocupada e com receio de que os meninos encontrassem problemas, mas avó com o seu olhar tranquilizou.
- "E o pantufa? - perguntou Anita." "O meu pai não se vai importar" - fiquei um pouco mais tranquila ao ouvir isso, pois já estava bem com pena do cãozinho. - O guarda-rios, esta a manobra a comporta do riacho. "O pantufa pode entrar - diz ele. - desde que não incomode a trombeta, a galinha de agua. Se não ela foge do ninho, e perdem-se os pintainhos." - a avó era mesmo fantástica a imitar a voz do pai do Francisco, e por visto ele era bem simpático também. - "Não se preocupe o pantufa não vai fazer disparates. - oh a Anita era um amor mesmo por deixar toda a gente menos preocupada, e afinal o pantufa não tinha cara de quem ia sair por ai a latir, ne?
Logo uma nova página surgiu, com novas gravuras todas elas de cenários novos, onde haviam pessoas em suas pescas como havia mencionado a placa.
- Aqui esta a lagoa ladeada por castanheiros. - observei a árvore. - "é funda?" - de certo que quem perguntava era Anita. - "Junto as margens não. Mas ao meio podemos-nos afogar. Sabes nadar?" - avó ao ler a pergunta olhou de relance para mim que estava sensivelmente com os olhos postos no livro. - "Sei... e esta camioneta, de onde vem?" - perguntou ela, que logo pensei que talvez Anita fosse bem mais curiosa que eu as vezes. - "É a camioneta da cooperativa dos piscicultores."
Fiquei confusa com a resposta do menino, que logo levantei os olhos querendo saber o que isso significava.
- Avó?
- Sim? - ela levantou também os olhos.
- O que é um piscicultor? - ela sorriu para mim, voltando a ler.
- "São criadores de peixes. Eles vendem os alevins. Aqui na lagoa há muitos variados... Olha Anita, são às centenas: carpas, percas, e outros peixes de agua doce." - fiquei mais esclarecida ao saber, não bem pelas palavras da avózinha, mas as do menino da história. - "É aqui que eles ficam bem, em liberdade na Natureza." - acenei concordando.
Na página seguinte tinha uma gravura de um moinho velho, ao qual eles entravam.
- O velho moinho de agua serve de refúgio ao guarda-rios. - leu avó para mim, que logo calculei que seria um sitio bom para eles abrigarem-se da chuva. - "É aqui que o meu pai guarda o material. - diz Francisco." - logo lembro do pormenor de arrumação.
- "Este peixe tem um ar terrível!" - decido ler o paragrafo que era a vez de Anita, logo avo acena concordando em ajudar com a história.
- "É um lúcio, o meu pai pescou ele o ano passado no lago... É grande.... Estas a ver os dentes?" - avó começou apontar para o peixe feio. - O Francisco bem gostava de apanhar peixes como aquele. - ela olhou para mim. - "Vamos pescar na ilha! Só espero que o meu pai me empreste a cana e o camareiro." - sorri.
Na seguinte página, lá estavam eles a ideias de pescar, e o pantufa a disturbar.
- "Podem levar tudo. - disse o guarda-rios. - Levem a jangada.... Mas tenham cuidado! Olhem que este barco não é muito fácil de manobrar." - dizia avo como se ela realmente soubesse. - Os patos, curiosos, aproximam-se. Eis que um se instala em cima da jangada. É o Ademar, o pato doméstico. O Francisco conhece-o bem, é da quinta do lago. - sorri ao ver que o patinho tinha um nome diferente e que não era mais um como tantos outros. - Os cisnes não gostam de ser incomodados, estão de mau humor. "Deixem-me passar! - ladrou pantufa. - Vou à pesca."
- Eu não sabia que o pantufa falava! - intervim.
- E não fala, mas é uma forma de deixar a história mais engraçada. - respondeu ela, preparando para continuar. - "E se jogássemos aos exploradores? - diz o Francisco. - vai ser muito perigoso... há índios por todo o lado. " - levei as mãos a boca espantada. - Logo o pato falou: "Eu não tenho medo nenhum. Sou o Ademar, o pato valentão." - ri. - mas pantufa perguntou em seguida: "E aquele ali, é o grande chefe?" - "Não é nada! É o senhor Joaquim, o caseiro. Não vês que esta a pescar? Não vale a pena incomoda-lo."
- Oh que engraçado avó eles estão a brincar! - apontei para a imagem seguinte.
- A jangada não se manobra como um carrinho de mão. - acenei que não. - É preciso saber dirigi-la. "Anita, empurra com a vara no fundo da agua... Não, não é assim. A vara não deve enterrar-se no fundo. - alertou o Francisco."
- "Vou cair Francisco... Vou cair, segura-me!" - gostei de imitar a voz de Anita.
- Anita caiu a agua. Felizmente sabe nada.
- Como eu! - respondi arrancando um sorriso da avo.
- O Francisco ajuda-a a subir de volta a jangada. " Agarra-te Anita! - fala o menino." - sorri. - Tudo se arranja, Anita tornou a ocupar o seu lugar na jangada, pois aventura continua. - "Que animal é aquele? - questionou a menina." Logo o menino ao seu lado esclareceu: "É a trombeta, a galinha-de-agua... Não a assustes! O meu pai não gosta que se perturbem estes animais." - mexo numa mexa de cabelo que vai para a frente dos olhos. - E eis que os três desataram a correr sobre as folhas dos nenúfares. - fiquei meio confusa de como era possível elas folhas de agua suportarem o peso deles. - "Eu também - diz pantufa. - eu consigo andar sobre..." "Pantufa, pantufa!"
- Que grande mergulho! - disse eu ao ver na imagem o cão na agua.
- De repente levantou-se uma grande ventania. A jangada ficou meio que a deriva. Impossível de controlar, e mesmo sem querer ela já estava encalhada nos troncos.
- Oh não eles estão presos na ilha! - falei com medo, ela acenou que sim.
- Eles começaram a correr pela ilha, vendo onde haviam desembarcado. - "Já viste esta ilha?" Só que o menino ao invés de responder, acena que não. Fazendo ar quieto para assustar amiga, mesmo sabendo que no sitio que estavam não corria perigo algum.
- "Que lugar misterioso!" - li o paragrafo seguinte.
- "Parece que estamos na floresta virgem!" - olhei a minha avo querendo saber o que é uma floresta virgem, mas deixei a pergunta para o fim. - "onde estão os piratas? - o cãozinho perguntou." - cai na gargalhada.
- Que cão pateta.
- Tudo corre bem na ilha. Não há dragões a cuspir fogo, não há piratas ferozes. Isso só existe nas histórias.
- Mas avó o livro também só é uma história. - relembrei.
- Eu sei meu amor. - sorriu, mas continuo. - O Francisco tem sempre boas ideias. "Estamos todos molhados, vamos por as roupas a secar no cimo da ponte de madeira." - bati palmas. - Os fatos de banho, são muito mais práticos, podem chapinhar na agua e apanhar rãs. "Cuidado! Uma libelinha!" " É sempre a mesma coisa. -diz o Francisco. - gostava tanto de apanhar um lúcio, como o do meu pai. Podíamos conserva-lo no moinho velho. Será que conseguimos apanhar um com o camareiro?"
- Eu acho que sim. - respondi.
- Um pica peixe pousa na extremidade da cana. Tem umas lindas cores. Mas Francisco fica pensativo pensando "Onde estará o metido o lúcio?"
- Não te preocupes avo, ele deve estar bem escondido. - riu-se.
- "Olha o teu lúcio! Eu estou a vê-lo... corre!" "O lúcio, onde?"
- "Escondeu-se nas ervas, e era tão grande." - li.
- Mas com toda a excitação, chegou a hora do lanche que a mãe de Anita havia preparado para os meninos. Mas ainda assim o lúcio não saia da cabeça deles. "Um peixe desses deve ter um grande peso. Ate parece um crocodilo".
- "Um crocodilo? Um crocodilo?" - tentei imitar o pantufa.
- "Então pantufa o que fazes de baixo da mesa? - quem perguntava era Anita."
- De certo que esta com medo. - respondi.
- Mas a tarde estava muito boa, ate a noite dar os seus primeiros sinais. O silencio invade o espaço, e Anita continua inquieta. " como vamos sair da ilha?"
- De jangada, ne avó? - perguntei não vendo um outra opção, ela acenou que sim.
- E quando os meninos menos estavam a espera surge um barco ao fundo fazendo sinais, e logo o Francisco levanta acenando, e sorri feliz ao ver que é seu pai a chegar. E assim termina mais um domingo diferente. - sorriu ela fechando o livro. - Gostas-te meu amor?
- Eu não gostei, eu adorei. - sorri e abracei a minha avo.
Tempo depois escutei a chegada de um carro, ao qual corri ate a janela para ver e dar conta de que era a mama que chegava. Então corri pela escada saltando para seu colo e deitar minha cabeça no seu ombro.
- Parece que esta com sono! - respondeu a minha mama segurando em mim.
- Foi um domingo diferente! - disse a avó Esme que sorri entre os cabelos da mama.

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