Há três anos que vivia longe da minha família. Há três anos que mudara-me para Cambridge no intuito de estudar na melhor universidade do mundo. Há três anos que encontrara duas amigas incríveis com quem partilhava o meu quarto no Campus. Há três anos que tornara-me uma garota sonhadora fora do normal.
Esta era a minha nova casa, a minha nova cultura, e o pais que não tão diferente do meu aceitara viver. A língua nem em todo era diferente, continuava a exibir o meu inglês fluente, mas tinha certos aspectos que aqui eram interpretados de modo um tanto menos conciso.
Todas as noites ficava trancada no meu quarto a escrever eventualmente num simples caderno que herdara dos meus avós quando tinha apenas 5 anos. Naquela época era muito nova para entender a utilidade de um caderninho assim, hoje quase adulta percebia qual a razão de escrever. A escrita era a minha companhia. Mas não apenas ela que tinha, pois a saudade pesava, embora a imaginação que todos os dias vinha à minha cabeça tornara forte.
Em toda a hora em que entregava-me ao meu sono, sonhos estranhos aconteciam. Não coisas que pudesse realmente ter a certeza que alguma vez realiza-se, eram coisas totalmente bizarras. Algo como sonhar que estaria sentada numa sala de chá na companhia da rainha de Inglaterra. "Imaginem só, eu Alice Brandon a tomar chá com a rainha Isabel II! Que louco". Claro que para lembrar, todas as manhãs ao acordar pegava no caderno e escrevia sobre os meus sonhos. Era necessário mantêm-los vivos para que pudesse ter como prova de o que sonhava era realmente verdade. As minhas amigas jamais iriam acreditar em mim se não tivesse uma prova.
Claro que com o tempo comecei a sentir-me frustrada, sentia que era hora de contar, partilhar os meus ditos sonhos com alguém. Claramente não com qualquer pessoa. Teria de ser apenas a quem realmente pudesse confiar a minha loucura! Sim, loucura porque realmente ninguém sonha com essas coisas tão absurdas, mas com algo mais comum. Isto realmente está fora do natural.
Num certo final de tarde, regressadas de mais uma aula estraordinário na faculdade, estavam nós as três reunidas cada uma em sua cama a conversar sobre as matérias, quando decidi ser inconveniente e mudar todo o corso da conversa. Nettie e Lucy olharam uma para a outra sem perceber.
- Meninas tem algo que quero muito com partilhar com vocês, mas prometam que irão ouvir antes de qualquer tipo de comentário, ok?
Ninguém deu um piu, então percebi que estariam cientes de que teria o dedo da palavras por alguns minutinhos.
- O que é Ally? - Lucy decidiu quebrar um pouco o juramento silencioso.
Tal foi a curiosidade que levou ambas as jovens a saltar de suas cama para a minha. Oh fiquei a sentir-me a poderosa. Aquilo parecia mais um assunto altamente secreto. Como se tivéssemos um clube, o clube das meninas.
- Ando a ter sonhos bizarros todas as noites. - comentei em um sussurro. - Mas só para acreditarem em mim, apontei tudo no meu caderninho velho. - explico convicta.
- A sério? Conta, estou morta de curiosidade, Alice! - desta vez foi Nettie quem falou.
Precisei mesmo levantar da cama, cheguei até à minha secretária onde tinha uma grande pilha de livros, todos eles de volumes diferentes e uns tanto mais grossos que outros, achei o caderninho, o tirei para fora e regressei até à cama uma vez mais com um ar de mistério. Lucy parecia ansiosa com uma boa história, Nettie preferia manter a emoção de lado e deitar de barriga para baixo no cantinho da minha cama. É então que abro o livro na primeira página.
- Esta noite sonhei com o Obama! - escutei um "OH", mas continuei. - Sonhei que estavam sentados numa daquelas pastelarias finas e a deliciarmos de um belo mil folhas, debatíamos sobre assuntos da actualidade... - subi os olhos às meninas, haviam reacções nos olhares.
- Só podes estar a brincar! - Lucy colocou as mãos na cintura bem desgostosa com esse sonho. - Devias ter sonhado com o Ian Somerhalder, esse sim é um prodígio de homem... - escutei aquele suspiro apaixonado dela. - No entanto diz a empresa norte-americana que o meu Ian está casado! - fez um beicinho deixando os braços novamente no colo, definitivamente desanimara.
- Com a Nikki Reed! - acrescenta Nettie vendo o desanimo da loira.
- Meninas! - ambas olham para mim. - Posso não ter sonhado lá com o Ian que até um gato, não só porque entra lá no "The Vampire Diaries" como Damon, mas à proporção já sonhei com...
- Paul Wesley? - questiona Lucy interrompendo a minha linha de pensamento. - Ai meninas ele é cá um borracho e está solteirinho da silva novamente, porque lá o caso com a ex-mulher não deu certo... bem feito... - bateu palmas, parecia uma criança. Não reconhecia Lucy. - Existem no entanto boatos que dizem que ele está de caso com a sonsa da Phoebe Tonkin! Digam meninas o que ela tem que eu não tenho? - elevou um pouco o corpo exibindo as suas curvas. Inclinei ligeiramente a nuca não sabendo nem o que responder. - Vocês gostam dela, não é? Conheço vocês duas, aposto que são amiguinhas... - volta a sentar na cama. - Só porque ela entrou na série H20, não quer dizer nada!
- Antes que Lucy me interrompe-se, ia dizer que sonhei que tinha ido no funeral do Paul Walker! - prenunciei-me. - Haviam imensas personalidades lá, tantas figuras conhecidas, algumas delas até haviam conversado comigo, já imaginaram só? Eu Alice a falar com gente da classe do cinema? TV?
- Com quem é que falas-te? - Nettie se fez notar ao colocar as mãos no rosto como suporte. - Algum tipo giro?
Ri com aquele tipo de pergunta, a ultima caia mais com tom de observação.
- Vin Diesel! - vi desde logo um desanimo enorme no rosto da loira. Ups, acho que ela não vai nada com a cara do tipo.
- Que horror! - fechei os olhos ao escutar aquilo.
- Juras? - a outra passou por cima daquelas palavras.
- Meninas, é tudo muito bizarro, avisei! - precisei ser sincera. - Nunca disse que aquilo que sonhava era algo normal, como avisei e bem fui até bem amiga vossa ao explicar esse detalhe bem no inicio.
(...)
Uns dias mais à frente aquela conversa toda sobre os meus delírios inconscientes pouco comuns,
percebi que nesses últimos que havia tido, eram alguma coisa como diferente. Talvez mais ou menos comum, mas não tanto assim. Apesar de certa vez sonhar com um rapaz, ele não era actor ou algo com que se pareça. Ele era simplesmente o rapaz que frequentava a mesma universidade que eu. Embora o tanto mais conhecido como ex-namorado de Maria. Que por sua vez fora uma grande amiga das minhas companheiras de quarto, que por alguma razão haviam deixado de se dar com ela. "problema seu".
Por um lado, bem sei qual foi o motivo, ela invejou tanto a nossa amizade que não aguentou partilhar. Então Nettie e Lucy vieram para mim. Sempre fui mais querida com as pessoas, essa morena de meia categoria não sabe o que é dar valor.
Bem, esse rapaz com quem começava a sonhar constantemente, vinha sempre com um ramo de flores, até achava graça.. melhor mesmo era quando começava a citar poemas de amor. Era a coisa mais romântica do mundo, sentia que era real, não igual aos outros sonhos que eram tão longe da realidade, eram mais fantasia, mas este em especial saia muito do controlo. Só que quando acordava, era cá uma desilusão, que queria continuar a dormir, para ver se havia uma continuação do filme. "É Alice, foi apenas um sonho como tantos outros". Como tornara habito na minha vida, preenchi o meu velho caderno com mais esse delírio.
Numa certa manhã sentada num banco de jardim aproveitando o pouco sol que ainda banhava, abri o caderno e reli cada linha escrita. Ri algumas vezes, em outras quase fiquei com a lágrima no canto do olho. O imprevisto aconteceu depois, não é que o tal rapaz que sonhara e continuaria a sonhar apareceu e abordou-me? Só sei que corei nesse instante.
A certa altura até perguntei a mim mesma se não estaria entrando num sonho tão real, contudo percebi que era verdade, ele estava ali, e eu aqui. Fechei o caderno imediatamente, e tencionei escondê-lo. Ele brincalhão, tirou o caderno da mão. Corei muito, parecia até tomate. Ele não podia ver os meus manuscritos, seria gozada e chamada de louca ou sei lá o quê mais.
Tentei tira-lo de suas mãos, até arrisquei a ficar em bico de pés, porque era baixinha, ele um tanto alto. Mas sempre que sentia que estava próxima de alcançar, ele elevava mais a mão. Começava logo a bufar.
- Devolve o meu caderno! - implorei, estava irritada pois sentia a minha privacidade invadida.
Ninguém sem minha permissão tinha direito a saber o que escrevia.
- Só se disseres o que tem lá!
Obviamente que recusei de imediato, nunca me momento algum iria contar o quer que fosse para ele, muito menos incluir a história em que sonhara consigo. Mesmo estando relutante, percebi que de uma forma ou de outra, nunca daria o caderno, faria isso para não deixar-me em paz. O loiro sentou na grama do jardim, vi-me obrigada a tapar os olhos, ele estava abrir o caderno. "ai meu santo amado", tremia por todos os lados. Comecei a espreitar por entre umas pequenas aberturas nos meus dedos.
"OH não" abrira a página que falava dele. " a terra que engula esse caderno".
Jasper olhou diretamente para mim, desviei os olhos do seu rosto, ele não podia ver o quanto estava corada e envergonhada com a minha escrita tão banal.
- A sério? - perguntou.
- A sério o quê? - tirei as mãos do rosto.
- É sobre mim que escreves! - comentou virando uma nova página.
Não sabia o que responder, estava completamente sem chão. "ai onde estão as minhas amigas nessas horas".
- A minha irmã vai adorar saber que tenho fãs! - sussurrou todo animado enquanto passava os olhos de um lado para o outro. - Ela bem diz que sou um espalha brasas, mas que não cativo garota alguma, só que isso muda muito o que ela diz! - involuntariamente comecei a corar sem parar. Sentia aquele formigueiro maldito novamente no rosto.
- Quem é a tua irmã? - ainda atrevi a perguntar, nunca olhando para ele, estava corada demais para o encarar.
- Tanya! Conheces? - cocei a nuca negando com a cabeça.
Algum tempo que frequentava esta universidade e nunca ouvia tal nome. Pelo menos nunca procurei conhecer todas as pessoas, até porque seria altamente complicado. Cambridge é capaz de ter dezenas de milhares de alunos.
- Não faz, mal... só que tem uma coisa, vou ter que levar o teu caderno baixinha! - abri bem os olhos. Suportar que ele lesse cada linha do que havia escrito já era mau, então imaginar que mais alguém leria isso, nem pensar.
- Não! - tirei o caderno de sua mão. - Nem pensar deixar alguém tocar no meu caderno! Podes não achar nada, mas para mim ele é tudo. - ele ficou um tanto confuso a olhar para mim. - Ai Jazz por favor vai ver se está a chover em algum lugar! - dei as costas.
Comecei andar no meu passo apressado como sempre fazia quando queria fugir de alguém. Algumas vezes chega mesmo a resultar, outras nem tanto assim. De facto a prova disso acabava mesmo por acontecer, porque uma sombra além da minha passava lado a lado no chão verdejante.
Encontrei um corredor estreito, entrei sem saber a onde ele me levaria, mas era a única forma que encontrava para sair do alcance do Jasper. Não fugia porque ele era chato, na verdade até era um bom rapaz, mas teimava que queria o meu caderno, não podia perdê-lo.
Por mais uns escassos metros à frente encontrei uma saída, mas ao invês de uma boa, era uma bem má. Tinha medo de alturas, e aquilo ia dar a um piso mais baixo. Onde estava eu mesmo? Olhei para trás, o seco daquele corredor era assustador. Decidi por à prova os meus medos e sentei, fechei os olhos encostando a nuca na parede áspera. Sem mesmo perceber já estava a sonhar, sonho esse que levaria-me de volta até Jasper. "Que estranho?" Ele abria os seus braços um tanto abaixo de mim, não espera creio que esse sonho seja algo mais real. Tentei enrolar um tanto mais no sono, apenas lembro de cair nos braços dele, e escutar palavras carinhosas como "estás bem? Queres que leve na enfermaria?", mas ai quando pensei que ia encontrar mais respostas, acordei. Continuava no mesmo lugar, longe da minha cama confortável.
Está fora de questão voltar para trás, ele vai encontrar-me! Mas saltar para uma altura como ela, está fora de cogitação. Apalpei os bolsos da jaqueta de ganga rapada, e não havia trazido o aparelho telefónico. Estava encurralada, e a única saída estava diante de mim, contudo bem armadilhada de um risco de queda e fractura. As opções eram nulas, coloquei de pé e rezei aos anjos que me guiassem. Fechei os olhos e saltei.
Ao chegar ao chão senti uns braços a segurarem a minha cintura, eram firmes, e protectores. "teria sido a minha avo a enviar um anjo?" Foi ai que abri os olhos, um pouco apreensiva e com medo de encontrar sangue ou simplesmente dor que não sentia.
- Jasper? - foi a única coisa que consegui falar ao olhar o rosto dele tão perto do meu.
- Estava à espera que decidisses saltar, porque bem percebi que ias precisar de uma boa ajuda! - revirei os olhos e delicadamente tirei suas mãos da minha cintura.
- Obrigada, mas não penses que lá por salvares, que vou dar o meu caderno! - sacudi a minha jaqueta e percebi que não tinha mais o caderno comigo. Entrei em pânico. - O meu caderno? - perguntei olhando em vastas direcções. Só então subi o olhar a ele, pois sorria. - Devolve o meu caderno!
- Quem disse que sou, quem tem o teu caderno? Baixinha acorda, o mundo não gira á tua volta! - bufei baixo. - Mas prometo que se o encontrar levarei para ti.
(...)
3 dias se passaram desde que perdera o meu único elemento de sonhos, quase que evitava sonhar, pois não tinha onde apontar. Lucy bem havia percebido o meu ar triste, no entanto havia sido Nettie quem havia tomado coragem para questionar.
- Andas tão triste, Alice! Perdes-te alguma coisa? - olhei as minhas amigas ainda de pernas encolhidas na minha cama. Definitivamente acordado para não sair na rua. - Somos tuas amigas, só queremos ajudar-te!
- Eu sei meninas, agradeço mesmo a vossa generosidade... desta vez tenho mesmo de ser eu a resolver isto!
As garotas não ficaram muito convencidas com os meus argumentos, contudo foram embora pois estavam atrasadas para a aula. Completamente entregue ao silêncio deitei novamente e usei do lençol para tapar meu rosto, quando escutei a baterem na porta. Fiquei tão resmungona naquele minuto que saltei da cama e fui até à porta com a maior cara de poucos amigos. "sempre a mesma coisa, Lucy esqueceu de algo, ou Nettie veio ver se estou mesmo bem". Abri a porta e fiquei espalmada ao chão vendo quem era.
- Olá, Alice! - sorria escondendo uma mão atrás das costas. - Sabes o que trago aqui para ti? - balancei a nuca em negação. - Então trago o teu caderno! - então o mostrou, abri um largo sorriso e aquele meu mau humor foi embora da mesma forma que veio.
- Conseguiste! - saltei animada para o colo dele, mas depois percebi que havia excedido a minha empolgação.
- Não tem problema algum! - comentou de fininho. Mostrava um sorriso tão cativante. - Aliás, preciso de dizer que li outras páginas mais e que tens talento, baixinha! - corei um pouco. - A sério, sabes mesmo escrever, e olha que não sou do tipo que fica colado a ler, mas tu deves ter o dom da super cola. - gargalhou em seguida.
- Provavelmente! Agora que já me entregaste o caderno que vais dizer à tua irmã?
Ele ficou pensativo por um breve instante, mas depois olhou para mim, os seus olhos brilhavam.
- Vou contar que conheci a garota mais especial que além de escrever sobre mim, foi resgatada! Que saltou no meu colo. - abri a boca num "Oh". - Não, sabes que mais? Nem pensar em contar o quer que seja... és unicamente especial e pronto é um segredo só nosso. Topas?
- Então, não? - estava animada.
- E agora até te convido para tomar um bom café, estás com ar de quem precisa de uma cafaina!
- Gostei da ideia!

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